domingo, 29 de septiembre de 2013

A Rota da Seda, o Colar de Pérolas e a competição pelo Índico (II de III)


Quem quer que alcance a supremacia marítima no Oceano Índico, será um jogador proeminente no cenário internacional.
(Alfred Thayer Mahan, geoestrategista da US Navy, 1840-1914).


Na primeira parte deste artigo, vimos como as rotas comercais tinham um papel destacado desde a Antiguidade, posto que, o comércio é a base das relações internacionais e, portanto, de toda a globalização —embrionária ou plenamente desenvolvida. Hoje em dia, as mercadorias mais importantes já não são seda ou especiarias, mas petróleo e gás natural, e por isso as rotas mais importantes são os oleodutos, gasodutos e vias marítimas por onde transitam petroleiros e transportadores de gás natural liquefeito (GNL). Portanto, sempre que nasce um conflito onde antes havia paz, é bom se perguntar imediatamente quais as "mercadorias" que possui a área, quais "rotas comerciais" transitam por essa, quais potências as disputam, quais potências se beneficiam da estabilidade destas rotas e quais se beneficiam de sua instabilidade.

Nós os europeus, alimentamos com nosso suor e nosso sangue os primeiros estágios do capitalismo: as fases industrial e comercial. Agora, na época do capitalismo financeiro, a ideia é reduzir custos com a terceirização, o dumping social, e a derrubada de todas as fronteiras para acabar com qualquer particularismo territorial e alcançar um planeta homogêneo. E são justamente os europeus que tem se convertido no obstáculo para essa globalização total. Querendo derrubar o poder e o prestigio que conquistamos no passado, poderia parecer que os geoestrategistas da globalização estão decididos a acabar fisicamente com os europeus étnicos, utilizando medidas socioeconômicas e mediático-culturais tendentes à disgenesia, à esterilização de gerações inteiras, à miscigenação, à feminização social e à limpeza étnica. Ainda estamos acostumados a pensar que a Europa ou "Ocidente" é o centro do mundo, mas a realidade é que esse centro se deslocou agora para a macro- região do Indopacífico.

Durante muito tempo, os mapas mundis foram quase sempre concebidos no modelo eurocêntrico (os Estados Unidos têm elaborado mapas americanocêntricos). Esse modelo já não representa a realidade do mundo. Os mapas-múndi modernos deveriam ser do tipo pacífico-cêntricos como este acima, ou invertidos como esse outro abaixo.



Para compreender, em grande medida, por que o centro de gravidade do mundo se inclina desde o Atlântico ao Pacífico, e por isso as companhias multinacionais estão erguendo suas torres de marfim nas cidades como Xangai (que já em 2005 tinha 4.000 arranha-céus, o dobro de Nova Iorque), Mumbai, Hong Kong ou Bangalore, só é preciso participar de um dos passatempos mais importantes e pseudo-rituais de nossa civilização: ir às compras. A maior parte dos produtos comprados em centros comerciais europeus e norte-americanos são fabricados nas sweatshops da China, Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Tailândia, Camboja, Vietnã, Malásia, Indonésia, etc. Desde os tênis Adidas made in Camboja até as roupas da multinacional espanhola Inditex (lojas Zara, Pull and Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius), fabricados por mão de obra semi-escrava, que inclusive superlotam navios situados fora de águas territoriais chinesas para evitar controles fiscais e aduaneiros. A maior parte desses manufaturados é produzida nos dragões asiáticos —eufemismo de "paraísos escravistas"— da Ásia-Pacífico.

O auge da Lestásia (Ásia Oriental) e da China como superpotência é consequência direta da globalização e da religião consumista e materialista instaurada nas novas catedrais do Ocidente: os centros comerciais. Os responsáveis são as castas financeiras de Londres, Nova York e Frankfurt, e seus testas-de-ferro no resto do mundo.

Devido às políticas da globalização (intervenções militares em teatros bélicos isolados, estratégia de deslocalização empresarial e industrial, imigração massiva, fomento do consumismo, do individualismo, do niilismo e do hedonismo, a disgenesia, a miscigenação e a vulgarização dos povos), o mundo inteiro pode desestabilizar-se e terceiro-mundializar-se, onde a população se aglomera em vastas favelas e decaem no abismo do caos, enquanto seu suor e recursos são explorados pelas elites financeiras, fortificadas nos núcleos de luxo fortemente tecnológicos, criando milícias privadas e controlando o seus escravos com serviços de inteligência de uma onisciência total. De momento, estes senhores se reúnem em lojas e conferências internacionais, piscando os olhos uns aos outros e repetindo sorridentes "eu economizo, tu economizas, ele economiza", enquanto promovem "açougueiros" da pior estirpe para derrubar os governos que não lhes agradam (como estão fazendo na Síria neste exato momento). Os aristocratas do dinheiro esperam ser livres, prontos para construir, sem obstáculos e sem oposição por parte dos povos livres ou governos independentes, um único governo mundial, um banco mundial, uma moeda mundial, uma religião mundial e um rebanho mundial de mão de obra dócil. Concluído esse projeto, logicamente culminaria na tecnologização da sociedade (o denominado progresso da matéria inerte em oposição à matéria viva), completado o movimento iniciado na Revolução Neolítica.

Mas se o objetivo for evitar o advento do Globalistão, é preciso entender as tramas da globalização. Enquanto a economia das nações está baseada no comércio internacional, o eixo do mundo serão as rotas que conectam o Grande Ocidente ao Grande Oriente, tanto por terra (Rota da Seda) quanto por mar (Rota das Especiarias). Neste artigo, repassaremos a situação de alguns dos Estados mais importantes do Oceano Índico, um espaço marítimo que se destaca por seu elevadíssimo tráfico petroleiro, e que as potências oceânicas utilizam para desconcentrar as rotas terrestres do comércio Oriente-Ocidente. Dedicar atenção para a realidade de cada um destes países nos permitirá compreender, em grande medida, os pormenores da nova rota das especiarias e os incríveis obstáculos da nova rota da seda.

Um olhar rápido para as ZEE (Zonas Econômicas Exclusivas) do Índico mostra algumas surpresas, como o protagonismo francês, australiano, britânico e sul-africano, e a importância relativamente desproporcional dos Estados-paraísos fiscais como as Ilhas Comores, Seychelles ou Mauricio. Não se vêem representadas reivindicações sobre plataformas continentais ou disputas marítimas —como a que existe entre Índia e Paquistão em torno da ZEE de Sir Creek, uma foz fluvial. Tampouco são representados os territórios índicos antárticos (pertencentes à Austrália, Noruega e França). Pode resultar bastante instrutivo comparar este mapa com o mapa sobre rotas e pontos estratégicos do Índico, que foi visto no artigo anterior sobre este tema.



ÍNDIA

A Índia, com sua enorme população, vasto território em forma de cunha, é o Estado melhor situado para dominar o Índico. Porém, possui três vizinhos que exercem contra ela uma influência geobloqueadora: Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka. A independência destes três Estados foi uma diabólica obra mestre das intrigas britânicas, cuja ideia era cortar os laços tradicionais da Índia com o Oriente Médio e a Ásia Central, evitar que se convertesse num país claramente hegemônico no sul de Ásia, adquirindo o rio a quem o nomeia (o Indo), e poder se aliar com seus rivais regionais. Também tem por objetivo evitar que a costa norte do Índico se vertebrasse, não-necessitando da intervenção ou de alianças estrangeiras para manter-se por si mesmo. Outros Estados-tampões que aliviam um pouco a tensão na fronteira sino-indiana são Nepal e Butão, países com os quais a Índia mantem boas relações, em detrimento da China.

A Índia tem também uma situação privilegiada para receber os hidrocarbonetos tanto da Ásia Central como do Oriente Médio e África. Sua extraordinária situação geográfica, unida a sua extensão e enorme população, a converteu na "jóia da coroa" do Império Britânico. Depois da II Guerra Mundial, o lema era a deseuropeização do mundo, e a Índia se tornou independente em 1947 no meio dos sanguinários conflitos entre hinduístas e muçulmanos. Durante a Guerra Fria, o país caiu sob a órbita soviética e se converteu num aliado da URSS contra China e Paquistão, que se encontravam sob a influência dos EUA. A Índia travou uma guerra contra a China em 1962, e teve conflitos com o Paquistão em 1947, 1965, 1971 e 1999.

Densidade da população na Ásia Central e Meridional. A tendência do arco hindu fortemente superpovoado é subir pelo norte, amontoar-se junto às bordas das cadeias montanhosas, conectar com os núcleos de população dispersa da Ásia Central e Ocidental e rodear a China. É a tendência do Cinturão de Gelo.

A Índia manteve uma economia bastante protecionista durante a Guerra Fria. Por exemplo, no final dos anos 70, a Coca-Cola e a IBM saíram do país, já que as condições eram inaceitáveis para elas. Porém, depois da queda da Cortina de Ferro, em 1991, Nova Déli liberalizou muitas de suas políticas econômicas em benefício de sua numericamente alta classe alta e média urbana. Atualmente, faz de tudo para "atrair investimentos", atraindo várias multinacionais estrangeiras (IBM, Microsoft, Nokia, PepsiCo, Ranbaxy Laboratories, Reebok, Sony, Vodafone, etc.). À sombra desse crescimento, tem prosperado centros de alta tecnologia como Bangalore, incluindo a hinduísta Tata Motors que comprou a Jaguar e a Land Rover à americana Ford. Hoje, salvo exceções, a Índia é um paraíso do capitalismo selvagem e escravista. A chave do "sucesso" é cortar custos. O país sul-asiático também se converteu num importante centro de finanças e da especulação (falando claramente: do roubo, do parasitismo, etc.), o National Exchange of India (Mumbai), fortemente relacionada com a City de Londres.

A política exterior hindu tem várias vertentes. Uma se dirige para a Ásia Central e está representada por Farkhor, uma base aérea hindu no Tadjiquistão, em pleno coração da Ásia Central. O objetivo inicial da base era proporcionar apoio logístico aos grupos anti-talibãs (e, portanto, anti-paquistaneses). Naturalmente, a verdadeira estratégia é projetar o poder hindu na Ásia Central e rodear o Paquistão. A Rússia é contrária a qualquer presença militar estrangeira na Ásia Central, exceto, claro, a sua própria. Existe outra base aérea tadjique de Ayni, que a Índia havia ajudado a desenvolver, mas não havia ocupado de imediato, provavelmente devido à essa inquietude de Moscou. A Índia também mantêm uma presença no Afeganistão, na forma de milhares de milhões de dólares em investimentos, e de tropas dedicadas ao treinamento do ANA (o Exército afegão). Esses movimentos podem ser considerados parte do Cinturão de Gelo (um anel geográfico que tende a conter a expansão da influência chinesa para o Ocidente).



Outra tendência da Índia é projetar-se para o Oriente Médio —já que por terra se encontra geobloqueada pelo Paquistão—, particularmente pelo Golfo Pérsico, de onde toma a maior parte de seu petróleo (seu maior fornecedor é a Arábia Saudita, seguido do Irã). Um novo enclave hindu representa esta tendência: o porto de Chabahar, situado na estratégica província iraniana do Sistão-Baluchistão, ao leste do país. Esse porto tem características interessantes, como sua localização fora do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz. Apesar da pressãointernacional, a Índia continua comprando petróleo iraniano e um dos maiores sócios comerciais de Teerã. Não pode esquecer que, quando triunfou a Revolução Islâmica no Irã de 1979, Teerã decidiu cortar laços com todos os países aliados dos EUA, o qual incluía o Paquistão. Isto, automaticamente, converteu o Irã em aliado da Índia. O porto de Chabahar também está aberto a comerciantes afegãos. Os projetos de gasodutos TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia) e IPI (Irã-Paquistão-Índia) são outras das manifestações da atração que exerce a Índia sobre o Ocidente.

O gasoduto IPI (em vermelho) ajudaria muito a estabilizar a região e vertebrar relações saudáveis entre os países envolvidos. O primeiro interessado que essa estabilidade não se materialize é o atlantismo, que faz de tudo o possível para desestabilizar o Baluchistão e envenenar as relações diplomáticas regionais, especialmente abrindo mão do radicalismo islâmico enraizado no Paquistão. Ao atlantismo é conveniente um Baluchistão independente e fantoche, e o gasoduto TAPI (em verde) ajudaria a afastar o gás natural centroasiático das rotas controladas pela Rússia, além de passar por um país sob ocupação militar estadunidense (Afeganistão) e evitar o fluxo de gás natural iraniano para o Leste, portanto, forçando o afastamento do Irã e da Índia e acentuando a tendência da Índia a interferir na Ásia Central, tradicional esfera de influência russa. É revelador que o projeto do IPI (chamado "gasoduto da paz") seja apoiado por sócios como a NIOC (National Iranian Oil Corporation), o gigante gasífero estatal russo Gazprom e até a italiana Eni. O custo do IPI é estimado em 1,2 bilhões de dólares, enquanto que o custo do TAPI, promovido por Hillary Clinton e o Grupo Merhav de Israel (dirigido pelo agente do Mossad Yosef Maiman), está por volta dos 8 bilhões.

Para o Ocidente, a influência hindu está cortada pelo Paquistão. Embora os recentes acordos de defesa entre EUA e Índia, CIA, Mossad e RAW (serviços de inteligência hindu) de apoio aos diversos atos subversivos na província paquistanesa do Baluchistão, na província iraniana do Sistão-Baluchistão… e também no Tibete e Xingjiang. Realmente, tanto o Afeganistão quanto o Paquistão não são mais que tampões para evitar que a Índia se conecte com o Irã como seria o "lógico" (a influência persa em toda a região é imensa, e inclusive o famoso Taj Mahal foi construído por uma dinastia de origem iraniana).

A expansão da Índia para o Leste tem gerado muitas controvérsias. A China é a primeira interessada em que a Indochina não se incline mais para a primeira metade de seu nome, e durante muito tempo, Mianmar fez o papel de Estado-tampão contra a Índia, inclusive abrigando os movimentos insurgentes anti-hindus e guerrilhas naxalitas maoistas. Desde 1993, devido a interesses econômicos, as relações entre Índia e Mianmar têm melhorado. O Mianmar tem petróleo e gás natural, e a Índia tem mostrado muito interesse em construir vias de comunicação (oleodutos, gasodutos, rodovias, estradas, ferrovias). Em fevereiro de 2007, a Índia anunciou um plano para desenvolver o porto de Sittwe, que proporcionariam às isoladas províncias do noroeste da China uma saída ao mar, através do rio Kaladan. Essa presença hindu está em contradição com a potência dominante no Mianmar, a China, que tem invertido enormes somas de dinheiro no país e que mantêm um porto em Kyaukpyu.

Não suficiente, de momento, 90% do comércio hindu e 100% de suas importações petrolíferas chegam pelo mar. Assim, a tendência mais importante da Índia é a marítima, para o oceano que leva seu nome. A Índia não se tem subtraído ao fato de que a imensa maior parte do tráfico mundial petroleiro e comercial passa diante de seu nariz, e tem tomado posições para reforçar seu controle sobre as rotas marítimas. A primeira medida tem sido iniciar um vasto projeto para implantação de radares e centros de inteligência e monitoramento do tráfico marítimo sua própria costa, estabelecendo uma rede de seguridade marítima. A segunda medida tem sido dar o salto mais além de suas costas.

As ilhas Maldivas são um importante sócio estratégico da Índia desde a Operação Cactus (1988), na qual os militares hindus repeliram os mercenários tamis. Atualmente, a Índia busca integrar as Maldivas a sua arquitetura de seguridade marítima, estabelecendo helicópteros, unidades da Guarda Costeira e radares nos 26 atóis do país insular, que se conectaram com o sistema costeiro hindu. Em troca, as autoridades de Maldivas têm o direito a observar como os hindus manuseiam a segurança nas ilhas Andamão e Nicobar, dos arquipélagos hindus críticos que se encontram abaixo de Mianmar, a somente 150 km da estratégica província indonésia de Assém, e numa situação altamente dominante do tráfico que se dirige ao Estreito de Málaca. Os hindus não são os únicos que cortejam as Maldivas: a China está levando a cabo explorações marinhas e tenta negociar a instalação de uma base militar.

Outro país ilha cortejado pela Índia é Mauricio, situado próximo a Madagascar. Ambos os países negociam a possibilidade de que a Índia permaneça com as duas ilhas gêmeas de Agalega, para que a Índia desenvolva ali o turismo. O turismo, claro, é uma desculpa para que preencha a zona de colonos, espiões, instalações logísticas e de monitoramento, aeroportos, infraestruturas de uso duplo (tanto civil como militar), empresas subsidiárias, oficinas e, provavelmente, projetos agrícolas. Em todo o mundo, tanto o turismo como os projetos ambientais, etnológicos, zoológicos, geológicos, empresariais, etc., a princípio, não são mais que uma desculpa para projetar influência e "pôr os dedos" sobre uma região [1].

A Índia tem instalações de radar e monitoramento de comunicações marítimas tanto no norte de Madagascar como nas ilhas Seychelles. O objetivo é supostamente interceptar atividades piratas e terroristas, mas também é um suporte para afastar a crescente influência da marinha chinesa na região. Se a isso adicionarmos os acordos marítimos com Moçambique (cujas costas são patrulhadas rotineiramente pela marinha hindu) e com Omã (que permite a Índia atracar navios em sua costa), vemos que a marinha hindu está assegurando a manutenção do eixo IBAS (Índia-Brasil-África do Sul) e suas rotas para o Golfo Pérsico. A Índia também está ativamente envolvida no Quênia, Somália, Etiópia, Uganda, Tanzânia, Malawi, Zâmbia, África do Sul e, possivelmente, o novo Estado do Sudão do Sul.

Click para aparecer. Este mapa ajuda a dar uma ideia da extensão do atual "império hindu", e até que ponto se encontra em contradição com a implantação das peças chinesas no tabuleiro marítimo indopacífico.

O auge do poder chinês e a virada do Paquistão —que tem inclinado claramente dos EUA para a China— tende a convergir a Índia ao bloqueio atlantista. Em outubro de 2010, a Índia firmou com Washington um importantíssimo contrato armamentista, em detrimento da Rússia, a tradicional fornecedora de armas de Nova Déli. Pouco depois, Obama começaria a apoiar o ingresso da Índia no Conselho de Segurança da ONU (organismo monopolizado somente por EUA, Rússia, China, Reino Unido e França). Mais tarde, Washington ofereceria às Forças Armadas da Índia a possibilidade de levar à cabo manobras militares no Alaska, no terreno montanhoso e condições de frio extremo, presumivelmente como preparação para possíveis conflitos no Himalaia, Caracórum e Hindu Kush. Os supostos inimigos: China e Paquistão. O grande obstáculo às relações da Índia com os EUA e a União Europeia é que a Índia depende dos hidrocarbonetos iranianos e não está disposta a apoiar as sanções contra o Irã na ONU. Isto se traduz em que os EUA deva impedir a todo o custo que a Índia se conecte ao Irã mediante gasodutos, oleodutos e corredores comerciais. Daí a desestabilização do Paquistão e da província de Baluchistão. Como resultado das recentes investidas diplomáticas de Washington na Índia, Nova Déli apoiou o Conselho de Cooperação do Golfo, a Liga Árabe e a OTAN nas sanções contra a Síria.

A Rússia —cujas boas relações com Nova Déli remontam à Guerra Fria— continua colaborando ativamente com a Índia nos campos da tecnologia e da defesa, com diversos projetos em estágio muito avançados, e também apoia seu ingresso no Conselho de Segurança da ONU. Além disso, Moscou quer que a Índia entre na OCX (Organização de Cooperação de Xangai, SCO em inglês, concebida como uma contrapartida eurasiática da OTAN).

Geopoliticamente falando, a Rússia é aliada "lógica" tanto da Índia como do Irã. As antigas invasões indo-iranianas, que forjaram as civilizações védica e persa, procederam das estepes do sul da Rússia e foram canalizadas naturalmente para a Índia pela configuração geográfica do território. Incluso, se remontamos à genética, há uma importante presença de linhagens paternas R1a (relacionado com os povos eslavos e indo-iranianos) tanto na Índia como no Irã.

O inimigo geopolítico da Índia é o Paquistão. Ambos os países são potências nucleares e não assinaram o Tratado de Não-Proliferação (TNP). Como veremos em seguida, a Índia pode cortar ao Paquistão seu acesso à China, o qual seria uma catástrofe para esse país.



PAQUISTÃO

O Paquistão é um dos barris de pólvora mais voláteis do planeta. A importância do Paquistão é óbvia apenas olhando para o mapa: é a ponte entre o Golfo Pérsico e os enormes mercados da Índia e da China, e uma ligação entre o Oriente Médio, o Hindustão, a Ásia Central e o Índico. O Paquistão —em comum com o Egito se trata de um país superlotado (200 milhões de pessoas, o país islâmico mais povoado depois da Indonésia), com favelas insalubres e imensas (Lahore e Karachi). Seus habitantes estão fortemente concentrados em torno de um rio (neste caso o Indos), sendo o resto do país comparável ao Afeganistão, e sua população é virulentamente anti-ocidental, fácil de excitar com retóricas religiosas e à beira de uma revolta social. Tanto que o Exército e os serviços de inteligência, assim como os grupos radicais, tem fortes laços com Reino Unido, EUA, Arábia Saudita e correntes salafistas-wahabitas do "jihadismo internacional". Mas, à diferença do Egito, o Paquistão é uma potência nuclear com instáveis fronteiras com outras duas potências nucleares: Índia e China. Também à diferença do Egito, o Paquistão tem vastas regiões montanhosas e um endiabrado labirinto de vales escondidos, que se prestam muito ao estabelecimento de campos de treinamento de insurgentes e à formação de autoridades locais (por exemplo, tribais, mafiosas, religiosas ou tudo junto) totalmente à margem do Governo.

O Paquistão foi sócio privilegiado dos Estados Unidos e da OTAN (também da China) durante a Guerra Fria, já que o país encerrava a expansão soviética para o sul. Utilizando o Paquistão como base, movendo as estratégias do ISI (serviço de inteligência paquistanesa, dirigido pelo general Akhtar Abdur Rahman) e regando as madrassas e mesquitas com petrodólares sauditas impressos no FED americano, o célebre geoestrategista Zbigniew Brzezinski (conselheiro de segurança nacional da administração Carter), em colaboração com o general Zia Ul Haq (que dirigia o governo paquistanês na época, focalizando na tarefa de islamizar o país), formou o movimento talibã —destinado primeiro a conter a influência soviética no Afeganistão e, depois, a justificar a presença de tropas da OTAN. Também tiveram papel chave nesse processo as redes de informações e de agitação do MI6 britânico na época do Império, e a infraestrutura de madrassas, campos de treinamento e mesquitas fundamentalistas financiadas pela Arábia Saudita. Islamabad e Washington temiam que a URSS acabasse invadindo o Paquistão, em sua busca dos portos quentes (Mar Árabe), e se conectasse territorialmente com a Índia. Se isso acontecesse, o Rimland (a periferia do continente eurásiatico, que circunda o Heartland) se partiria em dois, rompendo o assedio oceânico ao núcleo duro de Eurásia.

 
Click para aparecer. Este artigo do jornal britânico "The Independent", de segunda-feira, 6 de dezembro de 1993, estampa o título "Guerreiro anti-soviético põe seu exército no caminho da paz". No parágrafo superior pode ler-se "O homem dos negócios sauditas que recrutou mujahideens agora os emprega em projetos de construção em grande escala no Sudão". Bin Laden foi um dos contatos chave da inteligência saudita para obter dinheiro para os talibãs que, refugiados no Paquistão onde obtinham apoio logístico e econômico, mantiveram uma larga resistência contra a invasão soviética. Ironicamente, a película "Rambo III" representa os talibãs como os "bons".

Em tempos recentes, o Paquistão sofreu uma deterioração espetacularmente rápida de suas relações com o eixo anglo-americano, inclinando-se para a China e, também, para o Irã e para a Rússia. Isto chegou a tal ponto que em 2010 Vladimir Putin apoiou Islamabad para entrar na OCX e se converteu no primeiro líder russo da história a visitar o Paquistão (e ver aqui). Esse processo, por sua vez, deu lugar a um incremento do intervencionismo militar estadunidense em solo paquistanês (geralmente a cargo de drones e equipes de operações especiais), violando a soberania de Islamabad inumeráveis vezes [2] e deixando milhares de civis mortos.

Muitos destes ataques são claras manobras de provocação e tensionamento por parte de Washington. O show montado em torno à suposta eliminação de Bin Laden em 2 de maio de 2011 em território paquistanes, assim como o incidente do míssil teleguiado em 26 de novembro do mesmo ano —que custou a vida de 24 soldados paquistaneses— foram pretextos de Washington para justificar seu afastamento de Islamabad, assim como provavelmente para dar mais peso ao Uzbequistão e Tadjiquistão como vias de abastecimento para as tropas de ocupação no Afeganistão. Também supõe uma desculpa para mover suas bases de drones (aviões não-tripulados) às repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central, mas de momento, estes países se negaram. As autoridades paquistanesas bloquearam o abastecimento da OTAN pelo passo de Khyber e desalojaram os estadunidenses de sua base de drones em Shamsi (Baluchistão). Reveladoramente, o general William Fraser, responsável do transporte militar, informou ao senado em 28 de fevereiro de 2012 que as rotas bloqueadas pelo Paquistão eram essenciais para completar a suposta retirada de tropas estadunidenses do Afeganistão em 2014. Segundo ele, as rotas da chamada NorthernDistribution Network (que passam pela Ásia Central e só permitem transportar abastecimento não-letais) são insuficientes para manejar o imenso tráfico de comboios necessário para evacuar as tropas do Afeganistão. Portanto, se o Paquistão fecha suas rotas, os EUA terá que adiar sua retirada ou então prolongar sua ocupação, segundo se observa. Esta última opção talvez era o que tinham em mente os estrategistas do Pentágono, já que apesar de haver assegurado dezenas de vezes que para 2014 já não teriam tropas no país, Washington havia se dedicado a construir novas bases, expandir e atualizar as já existentes e converter sua embaixada em Cabul e outras instalações nas autênticas fortalezas e centros de inteligência e tecnologia. O certo é que se os EUA se indisporem com os países do entorno afegão, pode encontrar-se numa situação em que não poderá retirar a maior parte do material militar que tem instalado no Afeganistão, e seus efetivos permaneceriam isolados e sob assédio contínuo. O Secretário de Defesa estadunidense, Leon Panetta, declarou que continuaria levando ataques de drones contra os refúgios "que o Paquistão oferece aos insurgentes afegãos". Islamabad já afirmou que condena a violação de seu espaço aéreo pelos drones estadunidenses.

Outra esfera com a qual o Paquistão está rompendo relações é a petro-árabe, representada pelo Conselho de Cooperação do Golfo (GCC em inglês), uma união dos Estados petroleiros de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã e Bahrein. Isto se evidenciou em novembro de 2011, quando as autoridades aduaneiras paquistanesas confiscaram 80 falcões pertencentes ao emir do Catar. Não deve-se esquecer também que o estratégico porto paquistanês de Gwadar, atualmente uma pérola do colar chinês, pertenceu no passado ao Omã, um país que cultiva boas relações com a Índia. Se olharmos o mapa das Zonas Exclusivas do Índico mais acima, veremos que Índia e Omã tendem a estrangular o espaço marítimo paquistanês e sua saída à águas internacionais.

A desestabilização do Paquistão significa que o país abriga cada vez mais movimentos insurgentes e fundamentalistas (essencialmente de simbolo salafista e talibanes), que operam não apenas no Afeganistão, mas também na Índia, no Nepal, nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e na província chinesa de Xingjiang. Estes grupos, oportunamente, criam uma instabilidade regional que, junto com a diabólica orografia do terreno, torna inviável manter rotas comerciais.

Pode-se dizer que só as províncias de Punjab, Sindh e Islamabad são o Paquistão "propriamente dito", e que o resto forma a retaguarda do país. No entanto, há três províncias paquistanesas com uma tremenda importância no quebra-cabeça asiático:

Gilgit-Baltistão (Caxemira do Norte): tem a desgraça de ser a região onde convergem Afeganistão, China, Paquistão e Índia. O corredor afegão de Wakhan —uma das regiões- amortizadoras mais importantes do planeta desde que foi criada pelos britânicos no século XIX para evitar que o Império Britânico e o Império Russo compartilhassem fronteiras—, separa o Paquistão do espaço ex-soviético… por apenas 16 km. A Rússia quer acessar o corredor para construir uma estrada e uma via férrea que unirá o Tadjiquistão ao Paquistão, no caso de que Washington se retire do Afeganistão. A Caxemira é também uma região sensível porque, através dela, a Índia pode cortar do Paquistão sua comunicação com a China (a rodovia doCaracórum, pela qual a China sai ao Índico). Há uma região da Caxemira administrada pela Índia e reclamada pelo Paquistão, e uma região da Caxemira administrada pelo Paquistão e reclamada pela Índia. O que toda Caxemira tem em comum é que a religião majoritária é a muçulmana. Isto significa que sua paquistanização e talibanização é questão de se saber acionar os botões certos.

"Caxemira paquistanesa". Indicada no mapa pelo que os hindus chamam PoK (Pakistan occupied Kashmir), que corresponde às províncias paquistanesas de Gilgit-Baltistão (em vermelho escuro) e Azad Kashmir (em vermelho claro).

Baluchistão: é uma região estratégica do sul da Ásia que inclui a província paquistanesa de Baluchistão (que compõe a maior parte de seu território), a iraniana do Sistão e a franja mais meridional do Afeganistão. A região é montanhosa, árida, inóspita e de baixa densidade de população (apesar de sua enorme extensão, contem somente 4% da população do Paquistão), mas é rica em gás natural, petróleo, urânio, cobre e ouro. Também, em sua costa se encontra Gwadar, um porto que une o comércio chinês e centro-asiático com o Índico, e, portanto, com o resto do mundo, e onde a China recebe enormes quantidades de petróleo iraniano, sudanês, nigeriano, etc. O comércio terrestre na macro-região do sul da Ásia é impossível sem um Baluchistão estável e forte… e isso é o que o atlantismo tenta impedir.



Depois da revolução islâmica no Irã, tanto os EUA como o Iraque forjaram grupos separatistas balúchis para lutar contra o Irã. Esses laços haviam sobrevivido ao longo do tempo, e hoje são vários os grupos que servem, direta ou indiretamente, aos interesses do atlantismo na região, destacando dois. Um é o BLA (Exército de Liberação Balúchi, pela sua sigla em inglês), um grupo terrorista que tem laços com o MI6 desde a época da independência do Paquistão. Islamabad conhece de sobra todos estes laços, e o próprio ex-presidente paquistanês Musharraf declarou que o BLA tinha apoio do estrangeiro [3]. Dentre outras coisas, o BLA atacou trabalhadores chinês na região e promoveu a limpeza étnica contra não-balúchis em geral. Outro grupo é o Jundallah ("soldados de Alá"), cujas ações são especialmente dirigidas contra o Irã. Este grupo controla o narcotráfico da zona (o vício à heroína causou graves estragos no Irã), levou à sequestros e assassinatos de cientistas iranianos, atentados terroristas contra infraestruturas importantes e combate as autoridades de Teerã. O resultado foi uma guerra civil de baixa intensidade na fronteira do Irã-Paquistão, no qual o Irã perde muitos soldados e policiais. A revista Foreign Policy reconheceu abertamente que tanto a CIA como o Mossad competem para controlar o Jundallah, e recentemente, a embaixada estadunidense em Islamabad pediu a abertura de um consulado no Baluchistão.

A desestabilização da agredida província não só está a cargo de narcotraficantes, islamistas radicais, terroristas, espiões, confidentes, agitadores e infiltrados de serviços de inteligência dos EUA, Israel, Reino Unido e Índia, mas também de iniciativas que partem do próprio Congresso dos Estados Unidos, como a liderada por Dana Rohrabacher, um político com antigos laços com mujahideens da Al Qaeda (uma simples fachada para as operações secretas da CIA) e que dirige o nebuloso House of Foreign Affairs Subcommittee on Oversight and Investigations. A ideia é vincular o Paquistão como um Estado terrorista que oferece "refúgio" a terroristas, permitindo que os EUA façam de tudo para intervir no Paquistão e "liberar" o Baluchistão. De novo, este tipo de retórica não é mais que uma farsa hipócrita para o temor de que a China obtenha uma saída ao Índico. A Índia também entrou no jogo, deixando-se convencer por Cabul para dar dinheiro a movimentos insurgentes do Baluchistão e utilizar a policía indo-tibetana para proporcionar segurança na Ring Road afegã. No caso de que o Baluchistão se torne independente sob as égides de Washington, os EUA obteria desde o Afeganistão uma saída marítima que lhe livraria de sua dependência das rotas de abastecimento da Northern Distribution Network, que pasam pelo Paquistão e o espaço ex-soviético.

A China mantêm importantíssimo porto no enclave costeiro de Gwadar, e projeta estabelecer um gasoduto e um corredor comercial para unir-lo com o território chinês. O principal problema é que Baluchistão, FATA, Caxemira e Xingjiang, por onde passaria o corredor, são atormentados por turbulências geopolíticas. O Paquistão deseja que Gwadar se converta em um porto comercial de primeira categoria, competindo com o iraniano de Chabahar (a apenas 160 km de distância), onde a presença estrangeira predominante é a hindu. Se diz que, no caso de que o Baluchistão se torne independente, os EUA desejam que Gwadar se converta na "nova Dubai": um centro financeiro e petroleiro, assim como importante hub logístico para alimentar sua influência geopolítica na Ásia Central e no Cáspio, e para salvar-los de sua excessiva dependência de passos estratégicos montanhosos como o de Khyber. Por sua vez, a independência do Baluchistão seria um desastre para a China, que se veria privada de sua saída ao Índico.

FATA (Áreas Tribais Administradas Federalmente, em inglês; incluem a região da Waziristão) e KPK (Khyber Pakhtunkwa, antes chamada Província da Fronteira do Noroeste, NWFP em inglês): são as províncias mais talibanizadas, pobres, desindustrializadas e ingovernáveis do Paquistão, fonte de problemas na fronteira AFPAK (Afeganistão-Paquistão) e berço do mesmo movimento talibã, assim como da Rede Haqqani (nutrida pela CIA e pelo ISI paquistanês durante a Guerra Fria), uma organização que —a diferença da Al Qaeda, que é supostamente "global"— tornou-se desde Washington vinculada especificamente ao Estado paquistanês e ao ISI. Se a Al Qaeda foi a desculpa para atacar o Afeganistão, a Rede Haqqani vem a ser a desculpa para atuar no Paquistão. Na FATA também há campos de treinamento do Movimento do Turquestão Oriental, um grupo radical islâmico que atua na província chinesa de Xingjiang (também chamada Turquestão Oriental ou Uiguristão) e que tem laços com a (não podia faltar) Al Qaeda. O Paquistão é, em geral, uma pedra no meio do caminho para os islamistas radicais e mercenários dispostos a atuar pelo salafismo (por exemplo, na Síria), sob o pano de fundo dos serviços de inteligência atlantistas. O mesmo pode-se dizer da Arábia Saudita, Líbia, Kosovo, Chechênia e dos bairros "multiculturais" de muitas cidades europeias, especialmente do Reino Unido e França.

O epicentro do caos é o distrito de Waziristão, cujos habitantes tem fama de magníficos guerreiros, aproveitando-se do seu complicado terreno e dando-lhe muitos problemas ao Império Britânico entre 1860 e 1945. Os nativos desta região são da etnia pashtun, muito vinculada com conservadorismo e o tribalismo. Devido ao montanhoso terreno e à existência de vales isolados, existem também etnias muito interessantes, como os kalash e os hunza. Através das porosas fronteiras da FATA com o Afeganistão, se infiltram insurgentes, contrabandeando ópio e armas. Os militares ocidentais sentem que os "terroristas" se aproveitam da segurança do Paquistão, que Islamabad não os vigia suficientemente e que até os promove, e que a única maneira de acabar com os ataques da insurgência talibã é levando a guerra ao território paquistanês, coisa que já se havia feito com os drones e equipes de Operações Especiais, mas de momento ainda não há uma presença permanente. Na realidade, o estado atual do Paquistão faz pensar que a ocupação do Afeganistão foi uma desculpa para desestabilizar o Paquistão (graças a Ásia Central e todo o sul da Ásia) com o objetivo de bloquear os tentáculos geopolíticos chineses na zona. Essa suspeita já foi levantada pela TV estatal russa em 2009.

Indicadas no mapa, as províncias paquistanesas da FATA e NWFP (também chamada KPK). No Waziristão há ouro, diamante, cobre e manganês.

Sir Creek: merece atenção a parte essa franja de água de 96 km disputada entre Índia e Paquistão no estuário costeiro, e muito representativa dos absurdos geopolíticos. É que a possessão desta franja pantanosa implica, por extensão, dominar uma Zona Econômica Exclusiva marítima de mais de 8.000 km2. A disputa, aparentemente ridícula, encontra sentido na presença de importantes quantidades de petróleo e gás natural que se encontram sob o leito do oceano, e que incrementariam enormemente o potencial energético do país que a controle. Também está em jogo um importante potencial pesqueiro.

Linha verde: fronteira reclamada pelo Paquistão. Linha vermelha: fronteira reclamada pela Índia. Esta fronteira, prolongada 200 milhas mar adentro, decide a quem pertence uma ZEE de milhares de km2 e rica em gás natural, petróleo e bancos de pesca.

Outro problema do Paquistão que causa grande alarme internacional é que se trata do único Estado muçulmano armado com ogivas nucleares. Se o Estado paquistanês falhar, uma ou várias ogivas nucleares podem acabar "fortuitamente" em mãos de alguma facção muçulmana radical. Essas ogivas poderiam "desaparecer do registro" durante algum tempo, até que reaparecessem em momento mais oportuno em mãos de alguma organização terrorista, por exemplo, para lançar um ultimatum ou detonadas em atentados de falsa bandeira que poderiam dar a outro interessado um empurrão à geoestratégia das potências atlantistas. Por isso, as ogivas paquistanesas causam tamanha preocupação no mundo.



O IRÃ —O ATAQUE GLOBALISTA CONTRA A SÍRIA E A IMPORTÂNCIA ABSOLUTA DA PENTALÁSIA NO GRANDE TABULEIRO

O Irã é uma potência regional que corre por conta própia e com recursos de potência internacional, ao estilo de outros países emergentes como Brasil e África do Sul, ao ponto de que o futuro do planeta está indissoluvelmente ligado ao que se passa no Irã. É o Estado melhor situado para dominar o Oriente Médio e, junto com a Rússia, o melhor situado para monopolizar as rotas entre o Grande Oriente e o Grande Ocidente. Na verdade, em muitos sentidos, o Irã é uma Rússia do Sul, e possui as linhagens genéticas paternas R1a (associadas ao mundo eslavo, aos escitas, aos indo-arios, à cultura de machados de combate do Volga e à cultura dos Kurganes). Durante a Antiguidade, o Império Persa —que corresponde à esfera de influência do Irã moderno— compartilhava fronteiras com o Império Romano a Oeste e com a Índia ao Leste, e dominava também as rotas ao redor da China. Estes fatos dizem muito quanto ao destino histórico e geopolítico de Teerã.

A máxima extensão da influência persa. Seu papel como intermediária entre a Europa e "as Índias" (cobiçadas de longa data pelo Ocidente) é evidente. Esta esfera de influência, transplantada aos nossos dias, significaria automaticamente que o Irã se converteria no país número 1 nas reservas de petróleo e gás natural, e que dominaria de forma indiscutivel a Pentalásia e os estreitos de Ormuz, Bab-el-Mandeb, Suez, Dardanelos e Bósforo —com tudo o que implica à eles.

Durante a época dos impérios coloniais, o Irã foi o único país na região, junto com a mutilada Turquia, a não cair em mãos estrangeiras, se bem que a influência tanto britânica (no Golfo Pérsico e Índico) como russa (pelo Cáucaso e Cáspio) era importante. Era a época da Anglo-Persian Oil Company (antepassada da atual British Petroleum), cuja influência se estendia pelo Golfo Pérsico. Em 1925, Reza Khan, primeiro ministro e antigo general da Brigada de Cossacos Persas, deu um golpe de Estado e se impôs como "Xá" (uma palavra iraniana relacionada com o "ksatriya" hindu e que significa algo como "senhor") da Pérsia. Devido a suas afinidades com a Alemanha (inclusive trocou o nome de Pérsia por Irã, "terra dos arianos", em um lampejo ideológico nazista), Xá Reza foi obrigado pelos britânicos e soviéticos a abdicar para seu filho, Mohammad Reza Pahlavi. Os aliados temiam que os alemães, penetrando através do Cáucaso, pudessem enlaçar- se com o Irã (na Índia e no Tibete a Alemanha tinha muitos simpatizantes) e causar sérios problemas nos territórios britânicos, soviéticos e franceses. Os britânicos também tinham interesse na ferovia transiraniana como via de abastecimento da URSS. Através da Pérsia, Winston Churchill sustentou o esforço da guerra soviética com enormes envios de material militar e matérias-primas. A compannhia estadunidense Ocidental Petroleum (atual Oxy), de Armand Hammer, também concordou em escoar o petróleo soviético do Cáspio através desta rota.

Em 1951, Dr. Mohammad Mossadegh foi eleito primeiro ministro do Irã e empreendeu um programa soberano de nacionalização da indústria petroleira iraniana e suas reservas de petróleo, aniquilando o monopólio de Londres. O governo britânico, com Winston Churchill à cabeça, respondeu com a primeira penhora naval de petróleo iraniana, emprendeu uma campanha de sanções econômicas para arruinar e isolar o país, congelou os ativos iranianos e conspirou com o presidente estadunidense Eisenhower para, em 1953, lançar a Operação Ajax (conhecida no Irã como "Golpe de 28 Mordad 1338"), basicamente um golpe de Estado patrocinado pelos serviços de Inteligência anglo-americana. Mossadegh, que era enormemente popular no Irã, foi detido, e seu governo reestruturado por mando do xá, totalmente dirigido de Londres e bem correspondido tanto por Israel quanto pelos EUA e Arábia Saudita.

O regime iraniano começou a reorganizar-se seguindo o exemplo das petro-ditaduras árabes do Golfo e da Líbia do rei Idris. Durante décadas, o serviço de inteligência do xá, o SAVAK, aterrorizaria parte da população e seria temido e odiado por suas táticas brutais ao reprimir toda a oposição ao regime (essencialmente formada por eligiosos xiitas e ativistas comunistas). O descontentamento popular culminou com a Revolução Islâmica de 1979, encabeçada pelo ayatolá Komeini, que instaurou uma espécie de teocracia nacionalista xiita, voltou a implantar um programa político soberano, expulsou à British Petroleum, formou a Guarda Revolucionária —um corpo militar de elite que persigueu e executou os chefes do SAVAK— e travou uma guerra muito longa e sangrenta contra o Iraque de Saddam Hussein, sustentado pelos anglo-americanos. Esta guerra, na qual o Iraque utilizou armas químicas com pleno conhecimento do Ocidente, colocou em evidência o enorme poder magnético que a religião xiita exercia sobre as massas no Irã, dando-lhes força para levar alegremente adiante os maiores sacrificios e cometer ações kamikazes que naufragam a moral do inimigo.

O papel do Irã como nexo não se detêm em sua dobra Leste-Oeste. De todos os países com costa no Índico, o Irã é o que se encontra mais acerca do Mediterrâneo, do Cáspio, da Rússia, do Heartland, de Israel e do espaço ex-soviético. Sua posição única, em pleno Pentalaso ou Pentalásia (terra dos cinco mares), o converte em uma curva que conecta do Índico ao Golfo Pérsico, e uma delicada arquitetura geopolítica que chega ao Cáucaso, Turquia, Israel, Ásia Central, Rússia… e Europa.

A Pentalásia é a região-curva por excelência, já que une cinco espaços marítimos totalmente diferentes e de uma importância incomensurável. Além disso, a região está repleta de hidrocarbonetos. Não existe no mundo outro caso igual, e não é de estranhar que se trate do entorno mais delicado de todo o planeta. Se compreende, assim, o interesse do atlantismo em ocupar e desestabilizar a região (Israel, Iraque, Síria, Líbano, Curdistão): se este espaço se vertebrar e estabilizar sob um poder soberano (como esteve a ponto de acontecer com o panarabismo, ou como poderia se passar com o Irã e a Síria através do Iraque), sería de enorme importância como alternativa às rotas marítimas.

O Irã chega à história moderna como o único Estado do mundo banhado pelo Índico, Cáspio e Golfo Pérsico, e também dono de terras na Pentálasia e no Heartland eurasiático. Assim, se olharmos o mapa a Eurásisabalcanizada, veremos que o Irã se encontra também situado nos "Balcãs Eurasiáticos", na "Zona Central da Instabilidade" e como "Novo Pivô Global".

Todos os caminhos pelo mar e terra levam a Pentalásia. Durante milênios, nenhuma superpotência foi digna de tal nome se não tentasse dominar este pentágono ou alguna região, rota, porto ou recurso do mesmo. Neste crucial nó de rotas surgiram as primeiras sociedades civilizadas. Desde a mistura entre neandertais e "humanos modernos" até a aparição da raça armêna próximo-oriental, desde o surgimento da Cultura Natufiana à expansão da revolução neolítica até os nossos dias, passando por sumérios, acádios, assírios, egípcios, hititas, mitânios, fenícios, judeus, babilônios, caldeus, persas, macedônios, romanos, bizantinos, árabes, cruzados europeus, mongóis, otomanos, potências colonialistas, armênios (o genocídio armênio por parte da Turquia foi uma manobra para expulsar a Rússia da Pentalásia), panarabistas baasistas, israelitas, curdos, estadunidenses, multinacionais petroleiras, oleodutos como o BTC… A Pentalásia sempre foi uma região imperdível no destino da humanidade —uma janela para o nosso futuro. O geógrafo inglês Halford J. Mackinder, um dos pais da geopolítica moderna, anticipou a ideia da Pentalásia ao mencionar a "land of the Five Seas" em seu artigo "The Geographical Pivot of History", assimilando o conceito ao "Próximo Oriente". De acordo com ele, a zona aproximada do mapa é "the most vital of modern highways".

O Irã não só é nexo, mas também um potencial muro de contenção, já que se trata de um planalto elevado e amontoado de montanhas, uma sortuda fortaleza natural. É um espaço facilmente defensável, bem povoado (75 milhões dos habitantes, como a Turquia), com melhores meios materiais e econômicos e maior população que o Iraque de Saddam Hussein, mas com a complicada orografia do Afeganistão e com saídas marítimas excelentes. Expandindo sua influência para o Mediterrâneo, o Irã pode isolar o mundo petro-árabe do resto da Eurásia e também seria capaz de isolar a Turquia dos recursos do Golfo. Os desafios regionais do Irã são: o Estado de Israel, as petro- monarquias árabes e a presença desestabilizadora de EUA e Reino Unido na região.

Tanto a Turquia como Israel e as petro-ditaduras árabes, tem aspirações de domínio regional na Pentálasia. No entanto, a potência melhor situada para isso é o Irã, como demonstram exemplos históricos em seu passado (medos, persas, aquemênidas, partos, sasânidas, etc.). Teerã, aliado da Síria, Iraque, Líbano e das comunidades xiitas, alauitas, cristãs, drusas, ismaelitas, sufis, etc., poderia desempenhar um papel importantíssimo na estabilização deste espaço, e, portanto, na paz mundial. Para evitar- lo, o atlantismo financia o radicalismo sunita (especialmente de correntes salafistas- wahabitas relacionadas com Arábia Saudita) e faz o que pode (por exemplo, atentados com bomba em cidades santas xiitas do Iraque) para agitar o ódio sectário entre xiitas e sunitas, talvez com a esperança de causar uma macroguerra civil religiosa na região.

O Irã têm, junto com Emirados Árabes e Omã, além de costa no Golfo Pérsico, também no Índico. O atlantismo apoia decididamente as petro-ditaduras árabes (Arábia Saudita, Catar, Emirados, Bahrein), no entanto, o Irã está muito melhor situado que nenhum outro país do mundo para dominar o Golfo Pérsico, já que:

1. Domina o superestratégico Estreito de Ormuz, por onde transita 40% do tráfico petroleiro mundial (incluindo 40% do petróleo chinês). Se o Irã bloqueia este estreito (algo que seria considerado ato de guerra), as consequências internacionais seriam difíceis de calcular. Recentemente, os Emirados Árabes inauguram um oleoduto que conecta o Golfo Pérsico com o Mar Arábico (parte do Índico), saltando o controle iraniano de Ormuz.

O oleoduto Habshan-Fujairah, o ADCOP, tem uma capacidade de 1,5 milhões de barris de petróleo ao dia (três vezes mais que o tráfico petroleiro no Canal do Panamá) e seu esboço está desenhado para aliviar a dependência do Estreito de Ormuz, por onde transitam mais de 30 milhões de barris de petróleo ao dia. As ilhas indicadas (Tunb Maior e Menor, Abu Musa) são disputadas entre Irã e Emirados Árabes.

2. Tem mais costa no Golfo Pérsico que nenhum outro país. O "normal", geopolíticamente falando, seria que as atividades comerciais e financeiras do Golfo Pérsico, que supõem um tráfico fabuloso de capital por dia, tivessem lugar no Irã, e que o principal centro financeiro do Golfo Pérsico não fosse Dubai, mas a ilha pérsica de Kish (destinada a converter-se na Dubai do Irã, em parte graças a arquitetos alemães), declarada "zona de livre comércio" por Teerã, ao estilo de similares zonas na China. Em Kish está localizado a bolsa petroleirairaniana, um mercado de valores baseado em estoque petroleiro, e que utiliza divisas distintas ao dólar (euros, riales, rublos, renminbis e yens, principalmente), e que constitui quase uma declaração de guerra aos EUA, atacando-lhe onde mais lhe dói: seu monopólio sobre o petro-dólar criado do nada, como divisa de comércio internacional. Kish tende a competir pelo protagonismo com a pródiga cidade emiratense de Dubai, sede do Dubai Exchange —o trono supremo do petro-dólar, controlado ferreamente pelo NYMEX (New York Mercantile Exchange) novaiorquino (por sua vez, controlado por Morgan Stanley, Goldman Sachs e otros capitais de Nova York e Londres), o ICE Futures (Inter Continental Exchange), o London IPE (International Petroleum Exchange) e o London International Commodity Exchange. Todas estas entidades levam seus negócios em dólares. A bolsa de Kish foi aberta em agosto de 2011 e em suas primeiras transações empenhou o euro e o dirham emiratense.

 
A estratégica ilha de Kish é a sede do comércio internacional iraniano e compete diretamente com a vizinha meridional Dubai, dos Emirados Árabes Unidos. A pequena ilha pérsica, de 20.000 habitantes, recebe 1,5 milhões de visitantes por ano (e crescendo) e é uma das causas do temor de Dubai. O simples nome "Golfo Pérsico" é algo que põe os pelos em pé nas petro-ditaduras árabes, que preferem chamá-lo "Golfo Árabe". O Googlemaps, por sua vez, causou poêmica ao negar-se a usar tal nome ao Golfo.

3. A maior parte da população da costa do Golfo Pérsico é de religião xiita. Afirma um ditado que "o Islã não conquistou a Pérsia, mas que a Pérsia conquistou o Islã", querendo dizer que no Irã se deu uma indo-europeização e des-semitização do Islã, que desembocou na religiosidade xiita, mais hierárquica que o sunnismo, com um clero plenamente organizado e com claras reminiscências mazdas, zoroastras e maniqueísta. Em todo o Oriente Médio, os xiitas são uma potência de quinta categoria do Irã: constituem 66% da população do Iraque e do Bahrein (um petro-Estado insular dominado por uma monarquia sunita que reprimiu duramente a maioria xiita sem que a "comunidade internacional" movesse um dedo), 33% do Kuwait, 20% da Arábia Saudita (concentrados nas províncias do Golfo Pérsico, as mais ricas em petróleo) e 10% dos Emirados e do Catar. Existem também importantes populações xiitas no Azerbaijão (65%), Iêmen (40%), Líbano (33%) e Síria (15%), também do Paquistão, Turquia, Índia, Afeganistão e outros. Estas comunidades são essenciais na vertebração do "novo império persa" —a esfera de influencia do Irã— e põem nervosos os regimes petro-árabes, que esperam conter a influência xiita financiando correntes religiosas radicais como o salafismo-wahhabismo.

O Irã tem ambições de converter-se em algo como um "Reich de todos os xiitas e persas".

Como foi visto, é impossível deixar de exagerar a importância estratégica do Irã. As chamadas "sanções da comunidade internacional" têm, em realidade, o efeito de jogar o Irã aos braços da China, Rússia, Turquia e Índia (que ignoram as sanções), e representam somente o medo do atlantismo de que o Irã consiga reconstruir sua antiga esfera de influência, se aproximar da Europa e estabilizar vastos espaços terrestres que abrigam rotas importantíssimas, capazes de tomar-lhe grande protagonismo às vias marítimas dominadas pelo atlantismo. As reações paranoicas de Washington contra o Irã têm por objetivo:

Proteger o Estado de Israel do rival econômico, energético e geopolítico do Irã. Nas palavras do presidente dos Estados Unidos e prêmio Nobel da paz Barak Hussein Obama, "a seguridade de Israel é sacrossanta". A causa da afirmação está no imenso poder que têm o lobby sionista nos EUA.

Desestabilizar todas as fronteiras iranianas e evitar que o Irã se conecte territorialmente com o Paquistão, Iraque, Síria, Líbano, Índia, Rússia e China, especialmente mediante os projetos energéticos (oleodutos, gasodutos, etc.). Desde tempos imemoráveis, como "o império intermédio" entre o romano e o chinês, os persas, para prosperar, necessitavam de portos no Mediterrâneo e rotas para a Ásia Oriental. O atlantismo deve frustrar esta possibilidade, evitando, por exemplo, a consolidação de projetos como o gasoduto IPI.

O projetado gasoduto IPI. A parte paquistanesa será inaugurada, "se tudo correr bem", em 2014. O projeto é apoiado pela China e Rússia entre outros. O hub iraniano de Asaluyeh também pretende ser o ponto de partida para um gasoduto que atravesse Irã, Iraque e Síria, fora o Mediterrâneo pelo porto de Banijas. Se consumados todos estes planos (algo difícil diante da estratégia atlantista da desestabilização e balcanização), seria uma "rota comercial" direta entre o Mediterrâneo e a Índia.

Rodear o Irã de um anel de bases militares atlantistas (Iraque, Emirados, Bahrein, Afeganistão) e Estados satélites do atlantismo (Geórgia, Azerbaijão [4], Arábia Saudita), assim como massificar a presença militar em seu entorno para pressioná-lo e talvez forçá-lo a defender-se, o qual serviria de pretexto para atacá-lo militarmente. Os Emirados Árabes parecem ser o país onde esta concentração de efetivos será mais forte, com várias instalações estadunidenses (base de drones, base naval, centro de inteligência da CIA e complexo de treinamento da companhia militar privada Academi —antiga Blackwater/Xe Services). Também o Azerbaijão está servindo de sustentáculo de Israel na região. Junto com base talibã no Catar e outras instalações, está se formando no Golfo uma infraestrutura de recrutamento, treinamento e financiamento de mercenários jihadistas que fazem o trabalho sujo do atlantismo na Síria, Paquistão, Chechênia, Líbia, Somália, Magreb e onde seja necessário.

Evitar que o Irã se conecte com a China, especialmente através de um gasoduto pelo espaço ex-soviético da Ásia Central, ou simplesmente prolongando o IPI.

Cortar de imediato qualquer intento persa de se acercar ao Mediterrâneo —incluindo a Síria. Isto implica desestabilizar o Iraque como zona de passo, e a Síria e o Líbano como seus grandes aliados no Mediterrâneo. As insurreições promovidas na Síria pelo atlantismo, podem ser interpretadas, em grande parte, como o desejo de Israel e da Turquia de apropriarem-se do gás natural sírio (todo o Mediterrâneo Oriental está repleto de gás natural, se calculou recentemente que nas costas de Egito, Gaza, Israel, Líbano, Síria e Turquia pode haver 3,5 bilhões de metros cúbicos), do gasoduto árabe (notar as importantes ramificações em Homs, cidade onde havia gravíssimos enfrentamentos e atrocidades dos "rebeldes"), assim como evitar a construção dos oleodutos (acordados em setembro de 2010) e de um gasoduto chamado Gasoduto Islâmico (julho de 2011) que unia os campos petrolíferos iraquianos de Akkas e Kirkuk, e o massivo campo gasífero iraniano de Pars do Sul, com o porto sírio de Banijas (uma cidade mais próxima à base naval russa de Tartus, e onde também houve fortes conflitos financiados pelo estrangeiro) [5], com Damasco e até com o Líbano. Isso equivale, entre outras coisas, a restaurar a rota do destruído oleoduto Kirkuk-Banijas, que foi bombardeado pelos EUA quando invadiu o Iraque em 2003. O objetivo de todos estes "heréticos" dutos entre Irã- Iraque-Síria é de abastecer energeticamente a Europa sem passar por águas ou terras controladas pelo atlantismo, seguindo vias geográficas "lógicas" em plena harmonia com a antiga Rota da Seda. A pequena, mas influente petro-monarquia do Catar vê estes projetos como rivais de sua imaginada ligação "Catar-Arábia Saudita-Jordânia-Golfo de Aqaba-Golfo de Suez-Mediterrâneo", e que aumentaria também a influência israelita na Pentálasia.

Os projetos do eixo Líbano-Síria-Iraque-Irã (em verde) disputam com os projetos do eixo Turquia-Israel-Egito-Jordânia-Arábia Saudita-Catar (em vermelho escuro). Os EUA apoiam estes últimos, já que os projetos em cor verde no mapa conectariam com o gasoduto IPI (Irã-Paquistão-Índia), o qual implicaria uma rota comercial estável e vertebradora de boas relações, diretamente desde a Índia e China ao Mediterrâneo. É por isso que a OTAN e os países dos projetos em cor vermelha no mapa tentam plantar instabilidade nas áreas por onde transitaram os projetos em cor verde. Este é, em grande medida, o segredo por detrás dos conflitos no Líbano, Síria, Curdistão, Iraque, Irã, Paquistão, etc. O objetivo é o mesmo da época das Cruzadas: controlar as rotas que levam ao Mediterrâneo Oriental, estabelecer portos estratégicos e converter-se no controlador das torrentes de petrólero dirigidas à Europa. A Jordânia espera que seu enclave estratégico de Aqaba possa converter-se em uma espécie de Dubai do Mar Vermelho.

O estabelecimento na Síria de importantes hubs energéticos costeiros como Baniyas, patrocinados pela Rússia, seria uma competição direta ao porto turco de Ceyhan, construído pelos EUA. O Líbano, dominado de fato pelo Hezbollah (uma milícia xiita fundada por agentes da Guarda Revolucionária iraniana), se converteu num protetorado iraniano e materializa a vontade persa de chegar ao Mediterrâneo. Tanto a Síria como Líbano tem contenciosos territoriais pendentes com Israel, que em boa medida giram em torno do gás natural submarino, dos aquíferos e do domínio das montanhas.

A formação do eixo Irã-Iraque-Síria-Hezbollah (a chamada "Resistência") é patrocinada por Moscou. É oportuno recordar que, no início de 2010, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, convidou Damasco a "distanciar-se da Resistência". A provocativa resposta do presidente sírio Bashar al-Assad foi reunir-se em público com Ahmadinejad (presidente do Irã) e com Hassan Nasrallah (secretário geral de Hizbollah), firmar com eles um documento titulado humoristicamente "Tratado de Distância Reduzida" e declarar que entendeu mal a tradução das palavras de Clinton. O humor do presidente sírio não devia fazer muita graça em Washington: Obama respondeu prolongando em dois anos as sanções contra a Síria [6].

O oleoduto Kirkuk-Baniyas, que conectava dois Estados árabes laicos, moderados e de tendência panarabista (Síria e Iraque), foi construído em 1952 e transportou petróleo iraquiano para o Mediterrâneo até que foi destruído pelos EUA em 2003. Em setembro de 2010, concordou-se em reconstruir um projeto similar, e em julho do ano seguinte, concordou-se com a construção do Gasoduto Islâmico, o maior projeto gasífero do Oriente Médio, que conectaria o Irã, Iraque e Síria. Nesse mesmo ano, a Síria foi oportunamente desestabilizada. Esse duto (vide mapa) compete claramente com Kirkuk-Ceyhan, que beneficiam a Turquia e a OTAN.

A causa do interesse da "comunidade internacional" (na realidade, países dominados pelos EUA) em eliminar o presidente sírio Bashar al-Assad é porque desde maio de 2009 esteve promovendo sua chamada "estratégia dos quatro mares": converter a Síria em uma encruzilhada de rotas energéticas do Cáspio, do Mar Negro, do Mediterrâneo e do Golfo Pérsico. Na realidade, através do gasoduto árabe (AGP), a Síria tendia também a ter um pé no Mar Vermelho, exercendo melhor uma estratégia de cinco mares: a estratégia de domínio da Pentalásia. Assad afirmava:

Quando o espaço econômico entre a Síria, Turquia, Irã e Iraque estiverem integrados, articulamos o Mediterrâneo, o Cáspio, o Mar Negro e o Golfo (…). Uma vez que relacionamos estes quatro mares, nos converteremos na interseção necessária do mundo inteiro para investimentos, transportes e mais (…). Estamos falando do centro do mundo.

A Síria, como o Irã, também se encontra rodeada de um cinturão de bases atlantistas.

Promover "rotas comerciais" (oleodutos e gasodutos) que evitem expressamente passar pelo Irã, Armênia, Rússia e Síria, promovendo outros atores geopolíticos como Azerbaijão, Geórgia, Turquia e Israel. Nestes espaços, Israel colabora ativamente brindando serviços de segurança e vigilância, na prática militarizando a região. Israel, que quer erigir-se controlador dos fluxos energéticos da Europa (ao qual dificilmente poderá fazer se não dominar toda a Pentalásia numa estratégia do Eretz Israel, pretende reconstruir um oleoduto (o velho Mosul-Haifa) e construir um novo gasoduto do Iraque até o porto de Haifa, algo que de momento, devido à forte influência iraniana na região, havia sido bloqueado. Se consumar-se este projeto (e a ocupação do Iraque teria muito a ver com ele), Israel lhe interessaria um Curdistão livre, que dependesse de Tel-Aviv para obter benefícios petroleiros e que desse a Israel uma influência decisiva na Pentalásia. Israel também pretende unir o importante hub energético turco de Ceyhan com o porto israelita de Ashkelon mediante um oleoduto submarino que evite expressamente passar pela Síria. A estratégia de Tel-Aviv é que todos os oleodutos e gasodutos procedentes do Cáspio, do Golfo Pérsico e do Sudão, passem por seu território.

Estes dos projetos são vitais para a segurança energética e os interesses estratégicos de Israel. Desde Ceyhan, Israel receberia petróleo do Cáspio, e desde Mosul e Kirkuk, petróleo e gás natural curdo. Este último projeto necessita expulsar, por fim, a influência iraniana no Iraque, neutralizar a rivalidade síria e assegurar definitivamente as Colinas de Golã, um território sírio ocupado pelo Exército israelista.
  
Evitar que o Irã torpedeie o negócio do petrodólar com suas iniciativas financeiras tendentes a restaurar-lhe protagonismo no comércio internacional: o Irã aceita euros em troca de petróleo desde 2003. Em 2007, Teerã deixou de faturar petróleo em dólares, sentimento puxado pela vitória do Hezbollah (um movimento político-militar sustentado pelo Irã) na Guerra do Líbano de 2006. Em 2011, abriu a bolsa de Kish e, recentemente, a Índia começou a pagar o petróleo iraniano com ouro, e espera-se que a China possa seguir o mesmo exemplo. Vale a pena recordar que o dólar estadunidense (USD) é usado nos EUA, El Salvador, Equador e Panamá, e que as divisas do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã e Bahrein), Jordânia, Líbano, Eritreia, Djibuti, Belize e várias ilhas caribenhas, estão atados ao dólar. O EUR (euro), além de ser utilizado na eurozona, é empregado em Montenegro e na província sérvia do Kosovo, enquanto que as divisas da Bósnia, Bulgária, Dinamarca, Letônia, Lituânia, Cabo Verde, Ilhas Comores, Marrocos, São Tomé e Príncipe, as das zonas africanas do franco-CFA (Colônias Francesas da África), a zona do franco-CFP (Colônias Francesas do Pacífico), Groenlândia e outras dependências insulares, tem um cambio fixo em relação ao euro. Estas zonas de influência financeira se sustentam, entre outras coisas, com o comércio de petróleo e gás natural em suas respectivas divisas. Os países que saem dos petrodólares ou dos petroeuros, estão sabotando toda esta arquitetura financeira global, e o Irã está tendendo a criar sua própria cesta de moedas.

Evitar que o Irã se converta na segunda potência nuclear do Oriente Médio (depois de Israel, um país que se negou a firmar o Tratado de Não-Proliferação), para salvaguardar a hegemonia atlantista na zona e para evitar que a maior autarquia energética lhe permita destinar mais hidrocarbonetos à exportação. A sabotagem do programa nuclear iraniano também fornece o pretexto perfeito para realizar operações encobertas no território iraniano: sequestros e assassinatos de cientistas, políticos e altos cargos militares, geralmente com ajuda do Mossad. Em 28 de setembro de 2012, Obama retirou da lista de organizações terroristas à MKO (Organização Mujahideen e-Khalq), uma milícia fundamentalista baseada no Iraque, que atua com apoio estadunidense contra os interesses iranianos desde os anos 80.

Sabotear o Irã como via de passo necessário para a água da Ásia Central. Se planeja a construção de um aqueduto desde os aquíferos do Tadjiquistão (uma nação de etnia persa) até os sedentos países árabes. O aqueduto passará necessariamente pelo Irã e lhe daria um enorme poder sobre as desérticas petro-ditaduras do Golfo Pérsico.

Evitar que Irã vertebre todas as etnias persas, por exemplo, mediante a Aliança dos Países de língua Persa, criada em julho de 2006.

Isolar o Irã da "comunidade internacional", estratégia que não está sendo coroado com êxito, em vista das relações do Irã com os BRICS (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul), Turquia, Líbano, Síria, Iraque, Afeganistão, toda a Ásia Central, Armênia, Sérvia, Sudão, Nigéria, Eritreia, Costa de Marfim, Iêmen, Venezuela, Cazaquistão e muitos outros que se negaram a unir-se às sanções contra Teerã.

Evitar que o Irã promova setores dissidentes no Ocidente do mesmo modo que os EUA fizeram no Oriente. Teerã potencia o revisionismo do holocausto judeu, divulga personalidades antissionistas como o estadunidense David Duke, que afirma que o 11 de Setembro foi um atentado de falsa bandeira, e ainda financiou ao falecido político austríaco Jörg Haider (do mesmo modo que Kadafi financiava ao britânico Nick Griffin).

Evitar que o Irã se converta na "torneira energética" da União Europeia (que antes das sanções, comprava 20% de seu petróleo) e tenha laços lucrativos com o continente, especialmente com a Alemanha (que antes da última ronda de sanções era o segundo sócio comercial do Irã, depois da China), Áustria (o presidente da Camara Iraniana de Comércio disse que era "a porta de entrada do Irã à UE", em parte graças aos negócios da petroleira OMV), França (importantes negócios da petroleira Total antes da penúltima ronda de sanções), Espanha (Repsol mantinha importantes interesses no país). Com estes países, o Irã era o primeiro fornecedor de petróleo, antes da Líbia; mas a última ronda de sanções teve o efeito de encarecer o combustível vindo dos petro-regimes árabes, com seus altos investimentos no mundo do futebol e em publicidade. A Itália (quinto sócio comercial do Irã) e a Grécia, também deixaram-se chantagear por Washington e Londres, e todos os europeus, acrescentando também o Japão, Coreia do Sul e os países do GCC, demonstraram que carecem de soberania e que não são livres para defender seus verdadeiros interesses nacionais no seio de uma geoestrategia lógica e coerente. A UE, por sua submissão ao atlantismo, perdeu a oportunidade de dar-se bem com o Irã e firmar o petroeuro diante dos EUA.

Essas cifras são anteriores ao momento em que os bancos iranianos foram afetados pelas sanções da UE e desconectados da rede bancária SWIFT (o hub global das transações eletrônicas), em março de 2012. O embargo petroleiro da UE sobre o Irã se tornou efetivo em julho de 2012.

Evitar que o Irã mova às petro-ditaduras do Conselho de Cooperação do Golfo e a Jordânia, sustentadas por Londres e Washington.

Exacerbar o sectarismo e o radicalismo religioso onde for possível entre o Saara Ocidental e a Indonésia. Provocar conflitos entre xiitas e sunitas para desestabilizar a região e, talvez, provocar uma macroguerra civil. A fé e coesão dos xiitas devem ser contidas com o radicalismo sunita, financiado por Washington e Rijad. Para evitar a sectarização (e, portanto, a balcanização) do Oriente Médio, o modelo deveria ser do Hezbollah: um movimento nacionalista-libanês antes que sectário-religioso. O Irã deveria apoiar-se em etnias e grupos religiosos que supõem um nexo com o Ocidente, como os cristãos (ortodoxos, armênios, coptas, católicos, maronitas, etc.), os alahuitas, ismaelitas, sufíes, drusos e outros. Washington, em troca, deseja a erradicação de muitas destas comunidades, já que tendem a evitar que o Ocidente e Oriente se divorciem, e são interlocutores perfeitamente válidos para relações pacíficas e ordenadas entre Europa e Oriente Médio. Isso explicaria em boa medida a recente visita do Papa ao Líbano (não esquecendo que o Vaticano segue sendo uma potência internacional).

Atiçar o ódio étnico e o separatismo no Irã, utilizando especialmente as etnias baluche e azeri.

Utilizar a ameaça persa-xiita para convencer o Conselho da Cooperação do Golfo da necesidade de una presença da OTAN e de uma aliança regional anti-iraniana do tipo mini-OTAN na região, que inclui uma defesa anti-misseis (eufemismo para "instalações missilísticas tanto ofensivas como defensivas") conjunta. Essas manobras complementam a integração das estruturas de inteligência e comando militar israelita-estadunidense no Oriente Médio, assim como o envío de milhares de soldados dos EUA à Israel.



IÊMEN

O Iêmen é um dos candidatos mais razoáveis à Estado falido, já que o governo de Sanaa controla apenas um terço do país. Existe um caos absoluto entre uma infinidade de facções, caos que é aproveitado por potências estrangeiras para avançar suas própias agendas.

Trata-se do país que tem a maior costa no Estreito de Mandeb (a "porta das lágrimas"), portanto, o melhor situado para dominar um tráfico petroleiro que foi calculado pelo Departamento de Energia dos EUA em 3,3 milhões de barris por dia, além de um tráfico marítimo de 20.000 navios por ano e 10% do comércio mundial. O Iêmen também se encontra a meio caminho entre o Chifre da África e o Golfo Pérsico, e é o único que poderia estabelecer uma ligação terrestre entre o Índico e o Mar Vermelho, no caso de que Bab-el-Mandeb fosse bloqueado por uma potência marítima. Também é essencial para que o petróleo do Golfo chegue ao Canal de Suez e, portanto, à Europa. Se trata também, junto com Israel, da peça da Eurásia mais próxima da África. Isso significa que diversas organizações terroristas utilizam o país como cabeça de ponte para penetrar no continente africano através do Sahel, avançando para o Sudão, Nigéria, Mali e Mauritânia, e causando conflitos também no Chifre da África. A oportuna presença da AQMI (Al Qaeda no Magreb Islâmico), implica que os EUA podem projetar seu poder desde sua base militar no Tan Tan (sul do Marrocos) até o coração da África, especialmente Sudão e Nigéria (petróleo) e Congo-Kinshasa (uma das bacias minerais mais ricas do mundo).

Grande parte da responsabilidade pelo caos no Iêmen e em todo o Chifre da África se deve ao Camp Lemmonier, uma base estadunidense situada no Djibuti. A França também mantêm nesta base um destacamento da Legião Estrangeira. Desde esta base, saem drones, soldados de operações especiais e agentes da CIA que operam no Sudão, Iêmen, Chifre da África e Mar Vermelho. O objetivo é levar "a luta contra a Al Qaeda" (neste caso, contra a chamada AQAP ou Al Qaeda na Península Arábica) aonde se encontra a esquiva organização [7]. Alguns "informes" estadunidenses apontam que o Iêmen pode converter-se no novo refúgio da Al Qaeda, depois do Paquistão. Isso também serve de pretexto para levar ataques aéreos estadunidenses no território iemenita (como em dezembro de 2009). A presença ali da Al Qaeda justifica o uso mercenários para fazer o trabalho sujo de Washington onde mais falta fazer: Tariq al-Fadhli. Um suposto comandante da "internacional terrorista", chegou a um acordo com os EUA e Árabia Saudita para enviar 5.000 mercenários a Síria para tentar derrubar Bashar al-Assad. Através das porosas fronteiras do Iêmen passam jihadistas, imigrantes ilegais, refugiados, tráfico de armas e de drogas (especialmente de khat ou qat) e outras formas de contrabando.

Outros fatores jogam a favor do caos no Iêmen:

A presença de comunidades xiitas, concretamente zayds, no noroeste do país, especialmente na província de Saada. O Irã, através do Exército do Mahdi (milícia xiita do Iraque que deu muitos problemas aos ocupantes estadunidenses), formou o Al Houthi Zayd (chamados hutíes ou houthistas) em 2004, e desde então, o grupo que opera no noroeste de Iêmen, onde os xiitas são maioria, luta numa guerra civil contra o governo e também contra a Árabia Saudita, à quem encantaria obter uma saída ao Índico e controlar o Estreito de Mandeb, e que também tem pânico à possibilidade de que possa instaurar-se um governo pró-iraniano no Iêmen. Os hutíes não haviam aceitado o novo governo iemenita, enraizando no Iêmen a "primavera árabe".

Iêmen do Sul. Durante a Guerra Fria, o Iêmen estava dividido em duas partes. O Iêmen do Sul se encontrava sob influência soviética e, por possuir petróleo, havia um porto privilegiado (Adén, que dá nome ao golfo com a maior pirataria do mundo na atualidade) e uma ilha estratégica (Socotra), e era mais próspero que sua vizinha, o Iêmen do Norte. As potências oceânicas veriam com muito agrado que o Iêmen voltasse a ser balcanizado. Após a unificação em 1990, os iemenitas do sul acusavam o governo de Sanaa de discriminá-los e de explorar seus recursos de maneira pouco equitativa, com o qual surgiu uma insurgência separatista armada, o Movimento do Iêmen do Sul. Em 1994, houve uma guerra civil na qual os separatistas foram derrotados pelo governo de Saleh, que alistou, para a luta contra os salafistas jihadistas, mujahidins procedentes do Afeganistão e similares, incluindo o mencionado Al Fadhli. Em abril de 2009, Al Fadhli abandonou o presidente iemenita Saleh (ditador de fato do Iêmen do Norte e, desde 1978, do Iêmen inteiro), unindo-se aos separatistas do sul. Com a costa iemenita quase totalmente desasestida, muitas comunidades do Iêmen do sul dão abrigo à piratas somalis que operam no Golfo de Adén, e muitos líderes políticos iemenitas tem vínculos com líderes da Puntlândia (região somali) e do "governo" da Somália.

O Iêmen durante a Guerra Fria. Os interesses das potências oceânicas tendem a exigir que os passos marítimos estratégicos sejam divididos entre vários países, a fim de que possam obter facilmente um aliado na vizinhança caso um país possa lhes contestar. Durante a Guerra Fria, a função balcanizadora foi cumprida pelo Iêmen do Norte, enquanto que o Iêmen do Sul representava a velha ambição russa de dominar o Estreito de Mandeb e o Mar Vermelho. Depois da Guerra Fria, o Iêmen se uniu, mas as potências oceânicas seguem exigindo a balcanização de todo este espaço.

O arquipélago de Socotra é um dos mais estratégicos do mundo, e um dos motivos pelo que tanto os EUA quanto a Rússia puseram os olhos no Iêmen. O português Tristão da Cunha conquistou as ilhas para Portugal nos princípios do século XVI, integrando-as no primeiro colar de pérolas da história do Índico: o português. Durante a Guerra Fria, Socotra, que pertenecia à comunista Iêmen do Sul, abrigou uma base naval soviética que era chave para manter a presença da URSS no Índico e sua aliança com a Índia. Em 1999, Socotra foi escolhida por Washington como um lugar para construir "um sistema de sinais de inteligência". Segundo o periódico de oposição iemenita Al Haq, "a administração do Iêmen concordou em permitir às Forças Armadas dos EUA o acesso ao porto" e "um novo aeroporto civil em Socotra para promover o turismo havia sido construído convenientemente de acordo com especificações militares dos EUA".

Em janeiro de 2010, o general David Petraeus (então chefe do USCENTCOM e, agora, chefe da CIA) se encontrou com o presidente Saleh, utilizando como desculpa a frustração de um ataque terrorista em Detroit, que supostamente havia sido ordenado pela "Al Qaeda do Iêmen". Segundo informações do Irã, o militar estadunidense tinha por objetivo negociar o estabelecimento de uma base aérea dos EUA na ilha de Socotra, e também uma base naval para lutar "contra a pirataria e a Al Qaeda". Ou seja, o objetivo é a militarização da via marítima estratégica. No dia anterior à reunião, Petraeus anunciou em Bagdá que a "assistência" dos EUA para a "segurança" do Iêmen se incrementaria de 70 para mais de 150 milhões de dólares —um aumento de 14 vezes desde 2006. Segundo a "Newsweek" (18 de janeiro de 2010), os mandatários também concordaram com o uso de aeronaves estadunidenses, inclusive drones, em território iemenita, assim como com o emprego de mísseis, sempre que fosse aprovado pelas autoridades iemenitas. Reveladoramente, dias antes da visita de Petraeus, o gabinete iemenita havia aprovado um empréstimo de 14 milhões de dólares do Kuwait Fund for Arab Economic Development para o desenvolvimento do porto de Socotra. Na semana seguinte à visita do general estadunidense, a Rússia informou que "não havia abandonado seus planos de ter uma base para suas naves na ilha de Socotra". No entanto, os laços diplomáticos de Moscou no Iêmen haviam sido debilitados. O que Washington busca é integrar Socotra em sua arquitetura de segurança regional, junto com suas bases no Djibuti, Etiópia, Emirados Árabes, Bahrein, Árabia Saudita e ilha de Diego Garcia.

O arquipélago de Socotra se encontra a somente 80 km da costa somali e, por sua posição como passo obrigatório, domina o Golfo de Adén. Por suas águas territoriais, circula um tráfico marítimo extremadamente denso, incluindo manufaturas chinesas e petróleo com destino à Europa. A UNESCO declarou o arquipélago como zona de interesse ecológico, por sua particular flora e fauna, que evoluiu isoladamente durante milênios. Obviamente, outro motivo é evitar que a edificação de infraestruturas converta as superestratégicas ilhas em um dos complexos insulares mais influentes do mundo (como as Ilhas Seychelles). É útil comparar este mapa com aqueles das ZEE e das rotas do Índico.

Petróleo e água. Cerca de 75% da economia do Iêmen está baseada no petróleo e o Banco Mundial estimam que suas reservas se esgotem em no máximo antes de uma década. O Iêmen é também um país muito seco e os aquíferos estão sendo explorados acima de suas posibilidades de recarga. No entanto, algumas petroleiras crêem que no Iêmen (do Sul) ainda existam depósitos significativos, o que incrementaria enormemente o peso geopolítico do país.

A principal prejudicada por estes conflitos é Moscou. A Rússia vem querendo dominar o Estreito de Bab-el-Mandeb desde o desperdiçado projeto de Sagallo (no atual Djibuti) e, em geral, o Mar Vermelho e o Chifre da África (desde a época em que apoiava a rebelião do Mahdi no Sudão e a luta do Negus etiopes contra os italianos). Com o estabelecimento do Iêmen do Sul, de uma base naval soviética na ultra-estratégica ilha iemenita de Socotra e outra base naval na Somália, Moscou se aproximou muito de seu objetivo. Porém, no momento, a presença militar estrangeira mais importante no Iêmen é dos EUA… graças, especialmente, a presença da Al Qaeda, aos líderes jihadistas a quem quer "caçar" e à pirataria.

A única ação que a Rússia pode tomar no Iêmen é a venda de armas: a maior parte das armas do regime de Saleh são compradas à Rússia e outros países do antigo bloco comunista. A Rússia, inclusive, vendeu caças MiG-29 Fulcrum tanto ao Sudão quanto ao Iêmen. Posto que é duvidoso que as forças aéreas destes países tenham pilotos qualificados para manejar estes aparatos, o mais provável é que a Rússia proporcione "pilotos mercenários", como fizera em muitas ocasiões (por exemplo, com a Etiópia na sua guerra contra a Eritreia).



SOMÁLIA

Do mesmo modo que o estranho status do Saara Ocidental se deve ao fato da localização na região da África continental mais cercada pelos EUA, também a situação no Chifre da África tem muito a ver com a localização dessa porção do continente negro mais próxima ao Golfo Pérsico, Índia e China. Somália, Paquistão ou Emirados Árabes tem entre sí uma distância similar ao que em média se tem entre Espanha e Grécia. A Somália é também o país africano melhor situado para dominar o Índico, com sua forma de cunha e o Cabo Guardafui apontando para o Paquistão. A Somália domina também a orla sul do Golfo de Adén e, até certo ponto, o Estreito de Mandeb.

Por sua posição geográfica e sua natureza étnica, a Somália sofre instabilidades e se candidata como Estado falido por excelência, o exemplo perfeito do país "madmaxista" ou em condições de caos total, desde que Siyad Barre, chefe do último governo central minimamente digno de tal nome, foi derrotado em 1991 por uma combinação de militares golpistas, milícias apoiadas pela Etiópia, secessionistas e o Congresso Somali Unido de Mohamed Farrah Aidid. Desde então, a Somália colapsou em um caos de milícias, clãs e senhores da guerra locais. Quais são aparentemente os meandros de todo este caos?

Para entender a situação atual da Somália, é preciso remontar às intervenções militates dos EUA ao final do século passado. Em 1992, Washington mandou tropas ao país e, em 1993, os Rangers e as Forças Especiais dos EUA protagonizaram a extraordinária ação militar tratada na película "Falcão Negro em Perigo". Pouco depois da operação "Liberdade Duradoura", Washington ordenava novas operações especiais na Somália. Em 2006, uma intervenção militar da Etiópia (pressionada por George Bush), combinada com a ação da milícia jihadista-salafista Al Shabaab, evitou que a União dos Tribunais Islâmicos (apoiada pelo Hezbollah e Irã) pusesse ordem no país. Em 2009, as tropas etiopes abandonaram a Somália deixando-a em pior estado que antes, com a Al Shabaab dominando uma ampla região, e no outono desse mesmo ano (segundo "informações" da inteligência britânica, muitos militantes da Al Qaeda na fronteira AFPAK se transferiram ao Iêmen e Somália), Washington levou devastadores ataques de helicópteros no sul do país. O emergente Quênia invadiu a Somália em outubro de 2011, mantendo a Etiópia num silêncio sepulcral. Se espera o acirramento da rivalidade entre Nairobi e Adis-Abeba pelo controle do Chifre da África. Os verdadeiros interesses do Quênia não tem a ver com a "luta contra o terror"; combater o Al Shabaab é um pretexto para se anexar boa parte da província meridional de Jubbalândia, conhecida historicamente como Azânia, e flertar tanto com os EUA quanto com a China pela melhor oferta. Como não podia ser de outra maneira, também estão envolvidas jazidas de petróleo (há informações sobre políticos quenianos firmando acordos com a petroleira francesa Total no sul da Somália) e recursos hídricos (que escasseiam no Quênia).

O antigo protetorado britânico da Somalilândia declarou independência unilateralmente em 1991, quando colapsou o governo de Mogadíscio. Habitada por aproximadamente 3 milhões de pessoas, se trata da região mais estável da Somália, em grande parte porque representa a única saída ao mar da Etiópia, um Estado-cliente dos EUA e Israel. A Somalilandia independente é bem vista pelo atlantismo devido à frouxidão de suas leis marítimas e sua relutância a interveir no tráfico naval. As guerrilhas somalis que se enfrentam pelo controle do governo central, na província etiope de Ogaden, tendem a dificultar essa saída marítima para a Etiópia. O único motivo pelo qual a Somalilândia não havia sido reconhecida como Estado independiente é pela negativa do Egito, já que a Somalilândia é estratégica para que a Etiópia logre uma saída ao mar, um Estado considerado por Cairo como ameaça potencial devido a seu controle sobre as fontes do Nilo Azul, sem o qual o Egito não seria nada.



A Puntlândia declarou autonomia em 1998, alegando sua lealdade a Mogadíscio, mas também a necessidade de manter a governabilidade tendo em vista que o governo central tem problemas para controlar até as ruas da capital. A Puntlândia é vista como un refúgio de piratas, terroristas e tratados obscuros com políticos do Iêmen, Irã e da antiga Líbia kadafista, assim como com multinacionais petroleiras. O principal problema da Puntlândia é a escassez de pastos e água, assim como a guerra fronteiriça que mantem com a Somalilândia pelo controle da região intermédia "SSC" (Sool, Sanaag e Ayn), possuidora de riquezas minerais (que a Puntlândia cedeu para interesses estrangeiros). O SSC declarou também autonomia em 2012, autodenominando-se Estado de Khaatumo. Devido a seus laços tribais com a Puntlândia, a Somalilândia invadiu a estranha entidade territorial, e suas tropas permanecem nela no momento.

As intervenções atlantistas na Somália são supostamente motivadas pelo papel da Somália na formação de células islâmicas fundamentalistas. Londres até declarou que a Somália é uma "ameaça direta" a sua seguridade nacional, e Jonathan Evans, chefe da MI5, advirtiu que a Somália, depois do Paquistão, era o destino internacional número um de "treinamento terrorista". Em fevereiro de 2012, a Al Shabaab anuncia que se "unia" à Al Qaeda, o que seguramente resulta da cascata de intervenções militares da AFRICOM no arruinado país, a fim de lutar contra a ameaça da "AQHOA" (Al Qaeda no Chifre da África), ou como for chamada essa nova trama teledirigida pelos serviços de inteligência atlantistas. A Al Shabaab segue opondo-se ao governo central de transição (apoiado pelos EUA), mas também opõem-se à União de Tribunais Islâmicos (apoiada pelo Irã), e controla boa parte do país onde tem instaurado a Sharia nas zonas que domina.

Longe da "luta contra o terror", a estratégia do eixo Londres-Washington-Tel Aviv tem em realidade a ver com:

Rodear o Chifre da África de um "cordão sanitário" de países viciados (Djibuti, Etiópia, Quênia, Uganda, Sudão do Sul) para evitar que a China se infiltre na bacia do Nilo, na região dos Grandes Lagos, e acesse os hidrocarbonetos sudaneses e as riquezas minerais do leste de Congo-Kinshasa.

Infestar a zona de bases militares (como Camp Lemmonier no Djibuti, a nova base de Arbe Minch na Etiópia, e possivelmente Uganda e Sudão do Sul) para reforçar tal estratégia.

Estabelecer outras bases militares (Ilhas Seychelles, Diego Garcia, possivelmente Socotra) que se interpõe entre a Somália e suas saídas marítimas naturais (Golfo Pérsico, Índia, China).

Dominar os recursos da Somália (petróleo, gás natural, urânio, água e pastos) e, especialmente, evitar que a China se apropie deles.

Incorporar o Chifre da África e o Golfo de Adén à Lacuna Interhemisférica. Como veremos na terceira parte deste artigo, a Eurásia está dividida em dois hemisférios, o "Grande Oriente" e o "Grande Ocidente", e as potências oceânicas jogam de forma a polarizar e separar ambos os hemisférios. Os lugares onde se produz a ruptura Oriente- Ocidente formam uma vertical altamente estratégica composta, grosso modo, pelos campos petrolíferos de Nenets (Rússia), os Urais, o Cáspio-Cáucaso, a Pentalásia, o Golfo Pérsico, o Golfo de Adén e o Chifre da África.

A "Elipse estratégica": Algo como 71% das reservas de petróleo e 69% das reservas de gás natural do planeta se encontram aqui. É revelador que esta elipse separe simbólicamente os dois hemisférios eurasiáticos: Europa Ocidental e Ásia Oriental. O atlantismo busca utilizar esta elipse como cunha entre Oriente e Ocidente, e estendê-la ao Sul, cruzando o Iêmen, o Golfo de Adén e o Chifre da África.

Militarizar uma via marítima estratégica, utilizando uma desculpa parecida à que utilizam por terra: a pirataria. Dito isso, passamos a nos ocupar do problema pelo qual a Somalia é triste e internacionalmente famosa.

As águas territoriais somalis são uma zona pesqueira importante. Quando o governo de Mogadíscio caiu em 1991, uma infinidade de frotas navais de países desenvolvidos aproveitaram o vazio legal e a falta de regulação nas águas somalis para praticar a pesca ilegal e até realizar descargas de material radioativo e tóxico. Em vista da ausência de autoridade estatal, os pescadores locais e habitantes das costas se ergueram para garantir a soberania somali sobre suas águas e, desde logo, para saquear tanto quanto puderam, convertendo-se em piratas.

Em 2006 —quando a União de Tribunais Islâmicos estava a ponto de vencer o governo de transição federal, conquistando boa parte da Somália (aproximadamente na mesma época na qual o Hezbollah derrotava o Exército israelita)— a atividade pirata diminuiu em grande parte. No entanto, a intervenção das tropas etiopes (apoiadas por Washington) terminou com a estabilização da Somália, e a pirataria voltou a converter-se em uma praga. Ainda assim, os prejuízos da pirataria ao comércio e à pesca são muito menores que manter um Estado estável que submeta à regulação suas águas territoriais e a zona econômica exclusiva. Mais de 800 navios pescam no entorno marítimo somali e se calcula que a pesca ilegal produz 450 milhões de dólares por ano. Os países industrializados recorrem a bancos pesqueiros distantes porque em suas próprias águas já não tem nada para pescar. Além disso, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) alerta que 75% dos bancos pesqueiros tem desaparecido, que 80% da pesca estão sobreexplorados, que 30% das espécies marinhas estão a abaixo do limite biológico de seguridade e que, para 2048, já não permaneceriam recursos pesqueiros. Essa pressão sobre os recursos pesqueiros explica que 25% da pesca consiste em "capturas acessórias" como tartugas, aves marinhas, cetáceos, etc. ("danos colaterais"), que são novamente despejados ao mar. Outras vezes, se retira do mar apenas uma fração dos excedentes pesqueiros de certas espécies para que não suba demais a oferta e assim os preços se mantenham altos "nos mercados".

Em águas territoriais somalis se destaca a pesca do atum, com um ritmo absolutamente insustentável: meio milhão de atuns ao ano. A frota de atum na Somália é, em boa parte, espanhola (60% das capturas pesqueiras) e francesa (40%). Os barcos pesqueiros são particularmente vulneráveis à pirataria, já que com todos os cordames de pesca implantados, avançam com grande lentidão. São, portanto, presa fácil de embarcações ligeiras como as que usam os piratas. Para proteger navios comerciais e pesqueiros, os Estados geralmente recorrem as suas Forças Armadas e/ou a empresas de segurança e companhias militares privadas. Até agora, a Espanha se negou a utilizar unidades especiais de Infantaria da Marinha para defender sua frota pesqueira.

O rápido aumento da pirataria em torno do Chifre da África significa que a região passa a ingressar na "elipse estratégica" que vimos mais acima, com a finalidade de partir as rotas eurasiáticas em duas e justificar a militarização do mar.

A qualidade da pesca na costa somali degenerou enormemente devido à quantidade de despejos tóxicos em suas águas. Durante muito tempo, o "governo" da Somália protestou na ONU pela quantidade de barcos que entram em suas águas territoriais, jogam barris misteriosos do mar e se vão. Com o tsunami de 2004, muitos destes barris foram jogados à costa, se partiram, e os habitantes locais começaram a manifestar problemas respiratórios, hemorragias intestinais, reações cutâneas, bebês deformes e centenas de mortes súbitas. Os barris continham urânio e outros resíduos radioativos, metais pesados (como cádmio e mercúrio, que terminam nos depósitos de pesca pela contaminação da cadeia alimentar marinha, como os atuns), lixo industrial e até resíduos biológicos de hospitais. O mauritâno e diplomata da ONU Ahmedou Ould Abdallah declarou na estação de TV do Catar Al Jazeera que as responsáveis eram multinacionais europeias e asiáticas. A ONU mandou representantes para investigar o assunto, e logo encerrou o caso.

Na Costa de Marfim, Benim, Congo e Nigéria acontece algo parecido. Se calcula que em 2001 se alcançaram 600.000 toneladas de resíduos tóxicos nas águas africanas. O Senegal, de grande importância marítima, deixou de renovar seus acordos pesqueiros com a UE em 2006, mas o fato de que os navios usam "bandeiras de conveniência" (especialmente da Libéria, cujas leis marítimas são as mais liberais do mundo) para burlar a legalidade, dificulta o controle. Devido a isto, agora os barcos de pesca senegaleses são usados para transportar milhares de imigrantes ilegais a Europa cada ano.

Deve se acrescentar ainda a enorme influência sobre a indústria de atum da quebra do cartel bancário Lehman Brothers em 2008. No paraíso tropical-fiscal das Ilhas Seychelles, o banco nova-iorquino havia adquirido no outono de 2006 (coincide grosso modo com a Guerra do Líbano e a intervenção etíope na Somália) a Indian Ocean Tuna Factory (Fábrica de Atum do Oceano Índico), da multinacional H. J. Heinz Company. Pouco depois de completar a aquisição, o sempre generoso banco nova-iorquino se dispos a assistir ao governo seychelense com 200 milhões de dólares a mais de 9% de juros, sabendo perfetamente que o Estado insular seria incapaz de pagar o empréstimo, entre outras coisas porque sua divída externa já estava na caso dos bilhões de dólares… tratando-se de um país de somente 83.000 habitantes. Em outubro daquele ano, o líder da oposição foi espancado nas escada da Assembleia Nacional. Em julho de 2008, o governo de Victoria faliu ao pagar um título privado, e no mês seguinte, a agência de rating Standard and Poor’s degradou duas vezes a divída do país insular. À medida que Seychelles recebia empreiteiros privados, pessoal de inteligência, uma base de drones estadunidense e instalações militares hindus, cabe supor que tudo foi uma manobra financeira para amarrar o país, firmar acordos informais e obter um ponto no Índico em frente à costa do Chifre da África, em um arquipélago onde somente havia coqueiros.

Se compreende que muitos piratas sejam, na realidade, pescadores "bêbados", já que antes do caos pescavam o suficiente para comer e vender algum excedente, enquanto que agora não tem meios de subsistência. Embora seja óbvio que seus interesses não sejam altruistas, nem nacionalistas, nem ambientalistas, nem muito menos anti-globalização, se fazem chamar "guarda costeira voluntária", dedicando-se a saquear aos saqueadores com pleno apoio da população local somali e também iemenita. Não falta que haja "pescadores" gananciosos que vejam na pirataria uma maneira de enriquecer e que queiram aproveitar-se da complacência de certos países como o nosso para promover extorsões, enquanto evitam aproximar-se dos navios de outros países como a Rússia, que sabe defender seus interesses marítimos apesar de não ser uma talassocracia histórica. Os piratas somalis tampouco evitam que muitos países se aproveitem da pirataria para impor seus interesses estratégicos ou desestabilizar espaços marítimos. Justamente, a militarização das águas foi conquistada com a Operacção Atalanta e a crição da Combined Task Force 150.

As Zonas de atuação da CTF-150. Em vermelho: HOA (Chifre da África). Em verde: HOAEX (Chifre da África Extendido). Impossível deixar de perceber o triângulo Somália-Iêmen-Paquistão e o desejo de dominar os estreios de Ormuz e Mandeb e incorporar o HOAEX à Brecha Interhemisférica mencionada mais acima.



NOTAS

[1] A respeito, ver aqui uma hilária notícia sobre o Nepal —um satélite hindu que forma parte da estratégia do Cinturão de Gelo, e onde já tem madrassas e mesquitas salafistas relacionadas com redes de origem paquistanesas e sauditas, assim como grupos tibetanos que agitam contra a China. Outra notícia que evidencia até que ponto os governos consideram a opinião pública desinformada pode ser visto aqui e aqui: ao que parece, a oportuna presença de uma espécie de macaco na ultra-rica bacia mineradora do leste de Congo-Kinshasa precisa da proteção de desinteressados e altruístas organismos internacionais, que aspiram pôr suas mãos sobre dezenas de milhares de quilômetros quadrados de terreno e até cruzar a fronteira com Ruanda. Em todo o mundo, centenas de espécies desaparecem cada dia, mas à globalização somente importam as que se encontram nos lugares estratégicos. Estas notícias seriam muito divertidas se não fosse pela gravidade de suas implicações: que os assuntos ambientais (incluindo parques naturais, que têm enormes implicações geopolíticas), também são susceptíveis de ser privatizados, globalizados e/ou pessoal como desculpa para a globalização e o controle da finança internacional.

[2] Mais informações:


[4] País que fornece 25% das necessidades energéticas de Israel (oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan) e cujo Exército está equipado com material israelita.


[6] Aqui há abundante informação e ligações sobre a desestabilização Teerã-Damasco, incluindo a financiação do movimento "rebelde" na Síria.


[7] A Al-Qaeda apenas está fazendo o trabalho sujo do atlantismo e onde mais convier ao atlantismo, por exemplo assassinando engenheiros russos na Argélia.