domingo, 24 de agosto de 2014

A Rota da Seda, o Colar de Pérolas e a competição pelo Índico (III de III)

Uma personalidade repelente exerce uma função social importante na hora de unir a seus inimigos, e foi sob a pressão do barbarismo exterior que a Europa alcançou sua civilização. Peço, portanto, durante um momento, que contemplem a Europa e a história europeia como subordinada à Ásia e à historia asiática, pois a civilização europeia é, num certo sentido muito real, o resultado da luta secular contra a invasão asiática.
(Halford J. Mackinder, "The Geographic Pivot of History").


As mitologias antigas falavam de um eixo do mundo ou "Axis Mundi", uma espécie de fio que conectava os distintos mundos e dimensões, o cimento que os mantinha unidos, aquilo que tinham em comum. Também existiam monstros mitológicos que atentavam contra ele, como a serpente marinha Jormungand na mitologia nórdica. Nas partes anteriores deste artigo, vimos que na geopolítica existe também um Axis Mundi: se trata da Rota da Seda, uma árvore em torno do qual floresceram ramos e raízes que cobriam boa parte do continente euroasiático, tendendo a vertebrar especialmente todo o mundo indoeuropeu. Existia, inclusive, uma lingua franca na Rota da Seda: o yagnob, dialeto persa que toma seu nome de um recôndito vale do atual Tadjiquistão. Os monstros marinhos de nossos dias são as potências periféricas do mundo que tem tocado desempenhar uma estratégia marítima. Estas potências, pela impossibilidade de dominarem a Rota da Seda por terra, devem sabotá-la por mar, especialmente semeando os espaços continentais de divisões e instabilidades territoriais (balcanização) e drenando suas mercadorias através do Índico (Rota das Especiarias). Nesta luta de rotas, a Rota da Seda tende a dar importancia ao Heartland eurasiático, e a Rota das Especiarias ao Rimland e ao Índico.

Hoje, as violentas guerras de salvaguardar aos interesses econômicos de uma minoria de especuladores pode soar como conspiranoia ou exageração, mas só temos que pensar nos implacáveis conflitos que se produzem em muitos de nossos bairros pelo controle de uns poucos milhões de euros de droga. Se substituirmos as drogas pelos hidrocarbonetos e outros recursos, e os poucos milhões por dezenas de bilhões de euros, entenderemos que existe no mundo interesses bastante fortes para fazer que Estados e povos inteiros mergulhem na guerra, especialmente num mundo onde a escala de valores que domina é a do benefício material fácil, barato, imediato e a qualquer preço. Isto se vê agravado pelo fato de que, em muitos lugares, as fronteiras estatais parecem desenhadas pelo mesmo Diabo com o objetivo de perpetuar a instabilidade e o conflito e evitar o ẽxito de blocos regionais organizadores e pacificadores.

Como os meios de comunicação oficiais são controlados pelos bancos e multinacionais a quem não interessa que certas coisas sejam do domínio público (ao contrário, sua propaganda está claramente dirigida a acalmar e emburrecer as massas), o indivíduo que queira estar consciente "do que realmente se passa no mundo" deve recorrer a fontes alternativas, e muitas vezes fazendo um grande esforço para discriminar a informação inútil num mar de desinformação. Na última e mais longa parte desta serie de artigos, seguimos sem perder de vista que temos saído de um século atlântico para entrar num século indopacífico. Toca, portanto, terminar de passar em revista aos Estados importantes no domínio do Índico e das antigas Rotas da Seda e das Especiarias. Examinaremos também os diversos projetos estabilizadores que, opondo-se à ameaça do Globalistão e da influência caótica das potências periféricas do mundo, buscam solidificar as conexões entre Oriente e Ocidente.

Muitas vezes é evidente que na Eurásia há um ator externo que faz tudo o que pode para promover a instabilidade e evitar a ascensão de blocos soberanos e regionalmente hegemônicos. Esta tarefa é facilitada porque a "Eurásia" não representa uma unidade absoluta; mas tem claras subdivisões. Uma delas, a Europa, é uma mera península da Ásia, um continente patéticamente balcanizado e dividido, semeado de nacionalismos, identidades, encargos culturais e velhas rivalidades absurdas que já esgotaram o valioso poço genético de povos outrora fortes e promissores. Trata-se de uma terra repleta de quebra-mares geográficos, barricadas e fronteiras naturais contra as vastas planícies, estepes e mesetas da Ásia —o continente do grande vazio, da terra pura, dos grandes espaços, e dos horizontes e poderes políticos. Historicamente, a Europa é a Grecia contra o Império Persa, os bosques e as montanhas contra a estepe e o deserto, o Yang contra o Yin.

Um dia nosso continente vai ter que escolher a "versão" da Ásia com que quer relacionar-se, já que, como declarava Mackinder na citação acima, a Europa não pode fugir para o Leste. E há vários interlocutores que gostariam de erigir-se em intermediários entre o Grande Oriente e o Grande Ocidente:

O islamismo radical Jihadista da corrente sunita-wahhabita-salafista. Esta vigorosa corrente social pretende dominar o Oriente Medio, Norte da África, Mediterrâneo, Europa, partes da Índia e China e boa parte do Sudeste Asiático, é cultivada e mimada cuidadosamente pelos serviços de inteligência do eixo atlantista, pelas petro-ditaduras árabes do Golfo Pérsico, pelas casas reais (incluindo a espanhola) e pelos serviços sociais dos países da União Europeia. Na Europa, os governos, multinacionais e instituções bancárias parecem estar muito interessados em que a alta natalidade muçulmana (assim como de todas as etnias não-europeias) não sofra restrições, gerando grande quantidade de lúmpen social e fazendo com que a influência do fundamentalismo islâmico se projete agressivamente pelo interior de nosso continente, enquanto que a demografía do substrato étnico europeu autóctone se deteriora num ritmo perigoso para nossa sobrevivência. Com o objetivo de financiar a substituição étnica das raças brancas pelas raças escuras, os governos da UE subsidiam (com os impostos dos trabalhadores europeus-étnicos, claramente discriminados no acesso às ajudas sociais) as famílias étnicamente não-europeias —especialmente magrebinas, mas também subsaarianas, ciganas e andinas. A expansão do islamismo radical no Oriente Médio significaria que aquela região se tornaria intratável, separando a Europa da Ásia Oriental e obrigando-a à aliar-se ao mundo atlântico como na época do Império Otomano.

O Estado de Israel se anuncia como um oásis de civilização, democracia e liberdade, um muro de contenção diante da barbárie jihadista, uma frente aberta no mundo árabe, próximo do petróleo saudita e do gás natural qatariano, a única democracia e a única alternativa possível ao islamismo radical no Oriente Médio. Aqui podemos incluir os aliados regionais de Israel, como Jordânia, Turquia, Marrocos, Albânia ou a província sérvia de Kosovo, ocupada pelos terroristas da UÇK albanokosovar, sustentada pela Turquia, Estados Unidos e Reino Unido. A estratégia israelensse, apoiada geralmente pela Angloesfera (EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e diversos aliados circunstanciais) parece polarizar o Ocidente entre Islã e anti-Islã, para envenenar para sempre as relações entre o Grande Ocidente e o Grande Oriente, e para erguer-se no único interlocutor válido para o petróleo e gás natural necessário à Europa. Vale a pena recordar que "a primeira linha de defesa da Europa anti-islã" não é Israel, mas as Ilhas Canárias, Ceuta, Melilla, Kosovo, Chechênia, Trácia turca e zonas de non-droit (terceiro-mundistas e/ou islamizadas) da União Europeia.

A Federação Russa é o único projeto que representa verdadeiramente a penetração da influência europeia no núcleo duro da Ásia. Podemos incluir nos aliados regionais da Rússia, a Síria, Líbano, Armênia, Irã, o xiísmo em geral, as correntes pan-árabes, baathistas e nacionalistas laicas do mundo árabe e as importantes minorias cristãs do Oriente Médio (coptas no Egito, caldeus no Iraque, maronitas e ortodoxos no Líbano e Síria, armênios no Irã e Síria, etc.), que são mais antigas que as comunidades muçulmanas.

Como vimos anteriormente, as relações entre Europa e Ásia se condensam em torno da Rota da Seda, uma malha de vias naturais que coincide, grosso modo, com os caminhos tomados pelas linhagens genéticas paternas R1a e R1b para entrar na Europa há muitos milênios —talvez se trate de um caminho que a Europa deva desandar simbolicamente para reencontrar-se a si mesma. Durante boa parte de sua história, a Rota da Seda esteve dominada por meios de transporte como camelo, cavalo, carroças e caravanas militarizadas. Essa forma de vida cristalizou-se na formação de hordas e tropas altamente móveis (persas, hunos, mongóis, turcomanos, tártaros, etc.), que varriam toda a Eurásia repentina e periódicamente para horror dos países situados nas margens marítimas do continente.

Ao final do Século XIX e princípios do XX, as caravanas foram substituídas por trens; e o que horrorizava aos geoestrategistas britânicos era que toda a Eurásia pudesse se auto-vertebrar a partir de uma densa rede de ferrovias, fermentando um vasto espaço econômico que atrairia aos mercados chinês e hindu para um centro de gravidade totalmente inacessivel ao poder marítimo, inutilizando a imensa frota comercial e militar da Grã-Bretanha e estabelecendo uma versão ferroviária da Rota da Seda. Tanto a ferrovia Trans-Siberiana como a pretendida via Berlim-Bagdá (especialmente a construção do trecho sírio deste percurso) foram motivo de peso no desencadenamento da I Guerra Mundial e da revolução bolchevique de 1917.

A Rússia estava a ponto de fermentar um espaço econômico de extraordinário potencial na Siberia-Kazaquistão-Mongólia (com ambições na Manchúria, Mongólia Interior, Turquestão chinês, Tibete, Pérsia e Ásia Central em geral), e o mesmo estavam fazendo Alemannha e Áustria-Hungria na Europa do Leste e Oriente Médio. Confrontar a superpotência continental germana com a superpotência continental eslava foi uma obra-prima da diplomacia do verdadero inimigo do continente: o Reino Unido, ou melhor, a internacional financeira e plutocrática.

O presidente estadounidense Wilson descrevia a estrategia alemã como "lançar um amplo cinturão de poder militar alemão e controle político através do mesmo centro da Europa e mais além do Mediterrâneo, para o coração da Asia". O traçado da via férrea Berlim-Bagdá rompia o Rimland, coincidia em boa parte com a rota tomada pelos príncipes europeus para chegar à Terra Santa durante a Primeira Cruzada e, de certo modo, desandava o caminho empreendido no Neolítico danubiano para entrar na Europa. O verdadeiro objetivo da via férrea Berlim-Bagdá era conectar o porto alemão de Hamburgo (Mar do Norte) ao porto iraquiano de Baçorá (depois parte do Império Otomano), no Golfo Pérsico, às portas das possesões britânicas e de outro país germanófilo perigoso: a Pérsia. Esta rota teria sido muito mais curta, rápida e segura que a britânica, e por isso, entrava no mortal conflito com o Reino Unido. A Rússia também buscava sair pelo Mediterrâneo, rodear a Turquia e conectar-se com a Sérvia, Grécia, Chipre e Síria. Os projetos alemão e russo entravam em conflito em Istambul e, em menor medida, no Chipre e Síria. Para evitar que Istambul caisse sob o controle de uma superpotência eurasiática (que poderia utilizar o Mar Negro para fermentar uma vasta frota e lançar campanhas de guerra submarina contra o Levante e o canal de Suez), o geoestrategista britânico Mackinder sugeria "internacionalizá-la" de alguma maneira após a I Guerra Mundial. Podemos imaginar a bestial influência que teria tido sobre a história do mundo um controle alemão do Golfo Pérsico e seus recursos energéticos, ou uma guerra entre Alemanha e Grã-Bretanha nos atuais Kuwait, Iraque e Irã. Assim, Bagdá era chave para o Império Britânico e seus muiros agentes (como a família Sassoon), importantíssimos na expansão do poder britânico na Ásia Oriental.

Depois do fim da Guerra Fria, o Grande Oriente e o Grande Ocidente voltaram a interagir timidamente, apesar da desestabilização causada pela queda da URSS. As primeiras tentativas de interação (Iraque e Iugoslávia) são sufocados duramente por Londres e Washington, enquanto a Rússia, plenamente imersa no caos da era Yeltsin, estava demasiadamente fraca para reagir. Com a lenta reconstrução do poderio russo a partir de 1999, o fantasma da Rota da Seda voltou, desta vez sob a forma de oleodutos e gasodutos, que tendem a normalizar as relações entre os países, e que costumam anunciar a abertura de estradas, ferrovias, tratados comerciais, alianças militares e a constitução de espaços econômicos e blocos geopolíticos. Hoje, o pânico das potências marítimas tem a ver com estes corredores que canalizam os abundantes recursos energéticos de certas regiões através de vias frequentemente muito distantes do mar, e não somente na Rússia, mas também em torno da China. Tanto os Estados Unidos quanto o Reino Unido e Israel contrariam esta "ameaça" semeando instabilidade territorial e fomentando grupos terroristas (como fazem agora mesmo na Síria) para romper as ligações estratégicas da grande cadeia eurasiática, e criando seus própios oleodutos e gasodutos, que fluem invariavelmente nos estados e/ou espaços marítimos controlados por eles, circundando expressamente a seus rivais geopolíticos.

Neste contexto, vale a pena nos atermos ao Gasoduto Islâmico, um herético projeto iraniano que o eixo Londres-Washington-Tel Aviv quer sabotar custe o que custar:

O Gasoduto Islâmico atuaria como aglutinador de um novo império persa que conectaria a Europa com a Índia e a China, o Golfo Pérsico com o Cáspio e o Mediterrâneo, o Heartland continental com os portos do Sul eurasiático e o espaço turcomano e ex-soviético com o mundo árabe. O fato de que o gasoduto desemboque na costa síria, ao lado das bases militares russas, e que esteja gerenciado pelo gigante estatal gaseiro russo Gazprom, significa que a Rússia dominaria todo este mercado e que o insipiente império persa-xiíta, intermediário entre Ocidente e Oriente, seria "russificado", obtendo Moscou sua ansiada saída à mares quentes (Mediterrâneo, Golfo Pérsico e Índico) e, se adicionado o gasoduto South Stream, recriando a história dos impérios macedônio e bizantino. Concluido o Gasoduto Islâmico, os grandes perdedores regionais seriam Quatar, Arábia Saudita, Israel, Turquia e Jordânia. Em seu trecho desde o Golfo Pérsico até o Mediterrâneo, o gasoduto transportaria 110 milhões de metros cúbicos de gás, dos quais 25% seriam consumidos pelos países de trânsito e o resto pela Europa. Bandar Abbas, cidade costeira iraniana que ocupa uma estratégica posição no centro do gasoduto e presidindo o estreito de Ormuz, é um enclave com importante presença tanto russa como chinesa.

Antes de poder concluir esta série de artigos, é necessário repassar outros importantes Estados do Índico, da Rota das Especiarias e do Colar de Pérolas chinês, sem os quais não se pode entender o verdadeiro Grande Jogo em curso.



CAMBOJA

As montanhas de crânios de reprimidos da era de Pol Pot e o khmer vermelho demostram que muitas coisas desagradáveis tiveram que ocorrer para que hoje o Camboja represente uma pérola do colar chinês ou para que possamos comprar um agasalho Adidas made in Cambodia produzido por mão de obra semiescrava lotada em sweatshops (fábricas insalubres).

O Camboja se encontra numa encruzilhada na qual nasceu um grande reino medieval, o Império Khmer, que desde o centro religioso do Angkor dominou a maior parte da Península Indochinesa, encruzilhada de três espaços marítimos distintos: o Mar de Andamão (parte do Golfo de Bengala, por sua vez, parte do Índico), o Golfo da Tailândia e o Mar do Sul da China. O antigo Estado cambojano era, portanto, uma alternativa terrestre à rota marítima do estreito de Málaca (atual Cingapura).

Durante a era colonial, o Sudeste Asiático foi a etapa na qual coincidiram várias superpotências: China, França e Reino Unido. Na II Guerra Mundial, o Japão penetrou na região de maneira incrivelmente violenta. Os japoneses permitiram em 1941 que o governo colonial da França de Vichy (aliada da Alemanha) conservasse o controle da região, e os franceses inclusive permitiram que as tropas japonesas cruzassem a Indochina Francesa e esquartejassem 25.000 homens no Vietnã do Norte. Em março de 1945, depois da derrota da França de Vichy, os japoneses tomaram brevemente o controle da Indochina, estabeleceram um estado fantoche no Camboja, desarmaram as forças francesas e puseram fim à romanização do idioma khmer, revertendo sua escritura aos caracteres tradicionais. A França já em mãos dos aliados, retomaria o controle em outubro do mesmo ano, mas sua influência não seria a mesma e o idioma khmer não voltaria a ser escrito em caracteres romanos.

O Camboja perteneceu à França até que obteve, junto com o resto da Indochina Francesa, sua independencia em 1954, em boa parte graças ao Viêt Minh —uma guerrilla comunista que, liderada por Ho Chi Minh, havia sido apoiada por Washington para lutar contra os japoneses durante a II Guerra Mundial. Mais adiante, o Viêt Minh se converteria no Vietcong, em uma história que teria paralelo com o movimento mujahideen transmutado em movimento talibã.

Mesmo depois de 1954, a ex-Indochina Francesa continuou formando parte do quintal geopolítico da França até que em 1966 a escalada do intervencionismo estadounidense na região (estabelecimento do governo fantoche de Lon Nol no Vietnã, recrutamento de meio milhão de cambojanos para lutar contra o Vietnã do Norte) marcou o principio do fim do poder de Paris na zona. A interveção de Washington no antigo império francês nunca foi do agrado do ditador De Gaulle, que nesse mesmo ano de 1966 saiu da OTAN, deixou de fazer testes atômicos no deserto da Argélia para fazê-los na Polinésia francesa, sem dúvida em parte como uma advertência à Washington: a República Francesa era uma força a ser contida na região da Ásia-Pacífico. Cada vez mais, os interesses da França coincidiam com os da URSS: lutar contra a influência estadounidense e chinesa na região. Franco, em virtude de sua afinidade pela França Gaullista, se negou a intervir militarmente no Vietnã.

Em 1969, o presidente Nixon e seu geoestrategista Henry Kissinger fizeram entrar a Força Aérea dos EUA no espaço aéreo da região… sem a aprovação do Congresso. Nos quatro anos seguintes, a USAF lançou 280.000 bombas sobre o Camboja —o equivalente a 25 Hiroshimas. No total, os EUA lançaram mais toneladas de explosivos sobre o Camboja que durante toda a Guerra de Coreia ou em todas as operações do Teatro do Pacífico (incluindo o Japão conflagrado por duas bombas atômicas) durante a II Guerra Mundial. Oficialmente, o objetivo era atacar bases de fornecimento do Vietnã do Norte, mas em realidade os bombardeios tiveram o efeito de neutralizar o Camboja como Estado: morreram 750.000 cambojianos e 75% do gado do país, foram destruídas 40% das estradas e 30% das pontes (algo particularmente grave num país tão fluvial, onde a destruição de pontes o converteu num arquipélago de fato), e o insipiente setor industrial cambojiano foi estrangulado em seu berço. As culturas de arroz degeneraram e uma catastrófica fome, seguida de enfermidades, se apoderou do pequeno país.

Bombardeios estadounidenses no Camboja. No total, 113.716 lugares foram bombardeados pela USAF. As munições não-explodidas (UXOs) seguem sendo um perigo no Camboja atual. A franja bombardeada sugere que se pretendia criar uma "zona morta" estéril na fronteira Leste do país para evitar a expansão da influência vietnamita (assim, soviética) no Camboja e Tailândia. A ditadura de Pol Pot não foi mais que uma extensão política e econômica desta estratégia militar estadounidense, que seguramente poupou outros milhões de dólares em bombas. As mesmas fronteiras estatais da Indochina parecem minuciosamente traçadas para promover a balcanização territorial e especialmente dividir o curso do rio Mekong, que vem a ser uma saída natural da China. 

Raramente nos é dada uma interpretação clara acerca dos acontecimentos que rodearam o ascenso ao poder de Saloth Sar (conhecido como Pol Pot) em Camboja. Quando os EUA se retiraram do Vietnã em 1975, o país começou a cair sob a influência da URSS. Saia da sombra no Camboja uma estranha guerrilha comunista, o Khmer Rouge (o Khmer Vermelho), que era virulentamente anti-vietnamita. Pol Pot, o obscuro chefe do movimento, era claramente um agente do exterior cujo interesse era neutralizar o Camboja como Estado forte, convertendo-o num buraco negro geopolítico e quintal da Tailândia —por sua vez, quintal dos EUA. Pol Pot parecia simplesmente ser o continuador da política seguida pelos bombardeios estadounidenses de 1973. Sob suas instruções, o Camboja desmantelou todo seu potencial industrial, suas cidades, vias de comunicação, rede elétrica, e aniquilou a inteligentsia (especialmente francófona) do país (bastava ter óculos ou saber falar francês para ser detido e executado), realizou massacres de católicos, torturou e assassinou homens, mulheres e crianças sem distinção e exterminou, direta ou indiretamente, a um terço do povo cambojiano em apenas quatro anos de terrorismo de estado. O doentio governo de Pol Pot foi deposto em 1979 pelo exército vietnamita, cansado de lidar com incursões polpotistas em seu território, e os khmers vermelhos escaparam para as selvas do Oeste.

O resultado das execuções políticas, torturas, trabalho forçado, enfermidades, fanatismo e fome da era dos khmers vermelhos: entre 2 e 3 milhões de mortos em apenas quatro anos. Nota-se na foto acima o fuzil de assalto estadounidense M-16, procedente da época na qual Washington utilizava cambojanos conscritos para lutar contra o Vietnã do Norte. Muitos khmres vermelhos eram adolescentes, embrutecidos depois de uma vida inteira de guerra e facilmente manipulados pela cúpula polpotista. O genocídio cambojano nunca ecoará em Hollywood.

Contudo, a pesadelo khmer não acabou aqui. Em 1980, os Estados Unidos estavam financiando em segredo os khmers vermelhos na fronteira da Tailândia. A magnitude destas ajudas (no mínimo de 85 milhões de dólares entre 1980 e 1986) foi conhecido graças à correspondência entre Jonathan Winer, advogado do Congreso dos EUA, e o Vietnam Veterans of America Foundation, assim como ao jornalista australiano John Pilger. Washington também apoiou aos khmers vermelhos nas Nações Unidas: embora o governo de Pol Pot tivesse sido deposto em 1979, graças à ajuda estadounidense, seus representantes continuaram ocupando o assento da Camboja na ONU. Os EUA inclusive pressionaram para que a "comunidade internacional" reconhecesse os khmers (que dominavam 10% do território e da população do Camboja) como refugiados, contrariando uma convenção da ONU segundo a qual os suspeitos de crimes contra a humanidade não podem gozar de tal status. Washington mandou funcionários de alto cargo da CIA para apoiar a Pol Pot na selva, cedendo-lhes ao menos 5 milhões de dólares anuais. Outros países que apoiaram a presença dos khmers vermelhos na ONU foram China, Reino Unido (cujas forças especiais SAS, visivelmente enojadas, haviam treinado durante anos os khmers vermelhos em sabotagem, implantação de minas e sobrevivência na selva), Austrália e países da ASEAN (Cingapura, Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia —a partir de 1984, também o petro-sultanato de Brunei, colônia britânica até então) e a Comunidade Econômica Europeia, por sua vez, pressionada pela OTAN. O delegado britânico, Lord Peter Carrington [1], secretário de Estado de Thatcher, chegou a declarar que Londres apoiava o Pol Pot como governante legítimo do "povo khmer". Em julho de 1985, George Shultz, Secretário de Estado de Washington, pediu apoio para os contínuos ataques dos khmres Vermelhos no Camboja.

Dois dos muitos responsáveis diretos do que se sucedeu no Camboja sob Pol Pot. À esquerda: George Shultz, Secretário de Estado do presidente Nixon. À direita: Lord Carrington, Secretário Geral da OTAN e ocupante de vários cargos políticos relacionados à política exterior do Reino Unido entre os anos 60 e 80.

Os EUA também criaram o KEG (Grupo de Emergência Kampuchea) na embaixada estadounidense de Bangkok para distribuir ajuda humanitária nos campos de refugiados da fronteira tailandesa, controlados ferreamente pelos khmers. O KEG, oficialmente uma organização humanitária, era na realidade uma cobertura para um projeto do Departamento de Estado dos EUA cujos diretores eram oficiais da CIA com anos de experiência no Sudeste Asiático. Através do World Food Program e do exército tailandês, os khmers receberam 12 milhões de dólares em comida, beneficiando entre 20.000 e 40.000 guerrilheiros segundo Richard Holbrooke, acessor do Secretário de Estado para a Ásia. Os trabalhadores humanitários Linda Mason e Roger Brown, escreveram depois que "O Governo dos EUA insistiu que os khmers vermelhos fossem alimentados".

Em 1981, o geoestrategista Zbigniew Brzezinski, assessor de Seguramça Nacional do presidente Carter, declarou "Eu incentivei os chineses que apoiassem o Pol Pot. Pol Pot era uma abominação, nós nunca poderíamos apoiá-lo, mas os chineses sim". Os EUA acrescentaram, havia "piscado um olho públicamente" enquanto a China e Tailândia mandavam armas aos khmers vermelhos.

Reveladoramente, Pol Pot havia estudado na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde era forte a infiltração de movimentos trotskistas e maoístas financiados desde Washington e que não tinham absolutamente nada a ver com o Kremlin. Esses movimentos, dirigidos contra a ditadura De Gaulle na França —hostil aos EUA—, desencandearam o Maio de 68, e a religião do progressismo, do multiculturalismo, do feminismo e da "correção política".

Depois da expulsão dos khmers em 79, Phnom Penh estava sob o controle de um regime pró-vietnamita. O exército vietnamita havia encurralado os terroristas na selva, impedindo o regresso do Pol Pot. Mas a ONU, reconhecendo hipocritamente aos khmers como únicos governantes legítimos e rejeitando ao novo regime pró-vietnamita (portanto pró-soviético), decretou sem precedentes um isolamento total do Camboja. O novo Camboja "deskhmerizado" foi excluído de todos os acordos de comércio internacional, bloqueiou-se a ajuda humanitária, proibiu-se que a UNICEF e a Cruz Vermelha entrassem no país, e nos EUA chegarem a negar permissões para mandar brinquedos e livros ao Camboja. Nenhum Estado, mesmo a Coreia do Norte, foi tão claramente excluído das ajudas humanitárias da ONU em toda a história como foi o Camboja. O único país que protestou na ONU por este estado de coisas foi a URSS, que possuia duas importantes bases militares no Vietnã (Da Nang e Cam Ranh) e que mantinha as operações vietnamitas no Camboja. Hanói, por sua parte, estava disposto a retirar-se do Camboja… em troca de que China e OTAN deixassem de apoiar à Pol Pot e de que a Tailândia deixasse de proporcionar santuários aos khmers vermelhos [2]. O Vietnã foi condenado pela "comunidade internacional" e até sofreu uma invasão chinesa de castigo. Desde as selvas, os khmers seguiriam organizando incursões nas quais desestabilizavam o território e roubavam grandes quantidades de madeira para vendê-las ao extrangeiro. Segundo o presidente chinês Deng Xiaoping, a estratégia era "sangrar o Vietnã".

Sem dúvida, Washington queria cultivar o Camboja como uma especie de estéril Coreia do Norte no Sudeste Asiático, um buraco negro geopolítico cujo fim era interromper o fluxo natural de influências e mercadorias, evitar que o poder da URSS se expandisse além da conta, atazanando potencialmente tanto a China quanto Cingapura, colidindo com a Tailândia (esfera de influência estadounidense) e controlando certos ramos secundários da Rota da Seda que seriam vitais para as exportações chinesas nas décadas posteriores. Os EUA não só não se incomodavam em absoluto com a ditadura de Pol Pot —que era anti-soviética, anti-vietnamita e pró-chinesa—, como esta em verdade lhe conveio.

O Camboja repetiu, portanto, o macabro espetáculo que já havia ocorrido com os bolcheviques na Russia, as milícias da Frente Popular e as "brigadas internacionais" na Espanha, os maoístas na China, os mujahideens no Afeganistão, os "contras" na Nicarágua, os tigres tâmeis no Sri Lanka, a UÇK em Kosovo ou com os grupos narcos latino-americanos de hoje, o movimento budista rakhine na Birmânia e a Al-Qaeda e outros grupos do "jihadismo salafista internacional" no mundo muçulmano: o financiamento, a lavagem cerebral e o apoio ativo a um reduzido, porém, violento e fanático grupo de criminosos para desestabilizar um Estado e fazer o trabalho sujo do eixo Londres-Washington-Tel Aviv —ou, o que dá no mesmo, o serviço da Banca Internacional. Pol Pot se converteu em mais de um longo rosário de ditadores sanguinários apoiados pelos Estados Unidos, desde Suharto na Indonésia até Mobutu no Zaire, junto com um rastro de tiranos latino-americanos… muitos deles graduados na US Army School of the Americas.

Verdugos do Camboja apoiados tanto pelos EUA quanto pela China. À esquerda: Pol Pot. À direita: Kang Kek, diretor de várias prisões, inluindo a famosa S-21, onde se interrogava e executava os inimigos do regime. 

A ajuda do atlantismo à Pol Pot não se limitou a alimentar e treinar suas tropas ou proporcionar imunidade diplomática a seus delegados ao longo dos anos 80. Em 1991 —enquanto a URSS se desintegrava, os EUA atacavam o Iraque de Saddam Hussein— Washington e a Subcomissão de Direitos Humanos da ONU, como parte do "esforço de paz" no Camboja, garantiram aos khmeres vermelhos que não seriam julgados por seus crimes. Objetivo: favorecer uma "transição" pacífica. Os diplomatas da ONU, EUA e Austrália se escudavam na suposta força do Khmer para incluí-lo nos planos do futuro Camboja: não podemos deixar de fora dos acordos um grupo armado de 40.000 homens ou o conflito se prolongará, afirmavam. Com o acordo de paz de Paris de 1991, as tropas vietnamitas se retiraram do país, e aos khmeres se permitiu voltar à Phnom Phenh e até se lhes concedeu de um quarto a um terço da extensão rural do Camboja.

A União Soviética, em pleno processo de dissolução, não estava em condições de intervir. Em troca destas concessões, os khmeres aceitaram não participar das eleições: agora, de repente, para a imprensa internacional e para os diplomáticos atlantistas, os khmers estavam "acabados". Entretanto, se converteram em um dos grupos terroristas mais ricos do mundo, vendendo grandes extensões das selvas e depósitos de pedras preciosas do Camboja ao governo tailandês, assim como estabelecendo quatro grandes bases na Tailândia… protegidas por soldados tailandeses. O Camboja se abriu aos "investidores internacionais" como plataforma de mão de obra barata e o dinheiro estrangeiro começou a fluir e a esparramar-se pelo país, embora só uma reduzida oligarquia local, frequentemente ex-khmer, tenha se beneficiado dele.

A sempre difusa "comunidade internacional" pôs à frente do país Hun Sen, um antigo comandante khmer renegado, acusado pela Anistia Internacional de assassinar e torturar milhares de prisioneiros com descargas elétricas, ferros quentes e sacos de plástico. Sob a liderança de Hun Sen, ditador de fato, o Camboja está sendo efetivamente convertida em uma província do Globalistão. Aproximadamente a metade do país (incluindo as terras ao redor do antigo complexo arqueológico de Angkor Wat, as costas arenosas, os edifícios coloniais de Phnom Phenh e as ilhas do sudoeste) havia sido vendida aos investidores estrangeiros, deslocando 700.000 pessoas de suas casas e obrigando-as a converterem-se em proletários neo-escravos das multinacionais globalistas. O neoliberalismo extremista do Partido do Povo Cambojiano (CPP por suasigla inglesa) permite que se formem companhias 100% estrangeiras para a aquisição de terras cambojanas sem maiores exigências, algo que não sucede nem mesmo em paraísos escravistas como Tailândia ou Vietnã, onde os estrangeiros só podem ser acionistas minoritários na especulação de terras. As terras haviam passado das mãos de pequenos agricultores aos grandes agronegociantes tailandeses, estadounidenses e britânicos. O Camboja inteiro está sendo privatizado sob a supervisão do Banco Mundial, e aqueles que se opuseram haviam foram encarcerados, assassinados e/ou tiveram suas casas queimadas. Esta campanha de saqueio não foi condenada nem pelos EUA, nem pela China, nem pelos países da ASEAN.

Finalmente, EUA e China têm no Camboja um quintal ao qual podem roubar impunemente. Obama e Hu Jintao apertam as mãos do ditador cambojano Hun Sen. 

A China, antiga inimiga do Camboja, também havia entrado fortemente no país. Além de construir infraestruturas de transporte, obviamente orientadas a melhorar o fluxo do comércio chinês, Beijing havia incorporado o Camboja a seu Colar de Perólas. As localidades escolhidas foram as ilhas Kampong Som e o parque nacional de Ream, na província de Sihanoukville. Nestes lugares, a China inverteu grandes quantidades de capital para melhorar o acesso a portos e empregar o atrativo da biodiversidade para empreender a construção de infraestruturas turísticas. Provavelmente, Beijing abriga a esperança de que Sihanoukville se converta em uma estação intermediária entre o Mar do Sul da China e o estratégico istmo de Kra e/ou o projeto birmano de Dawei, que veremos mais abaixo.

Pol Pot foi detido em 1997 e morreu no ano seguinte em sua frouxa punição de prisão domiciliar. Hoje, os meios de comunicação tem o prazer em apresentar-nos o tirano como um monstro —o qual é certo, mas também incompleto, já que Pol Pot era um agente. Ao nos obcecarmos com ele, esquecemos dos verdadeiros monstros: seus promotores em Washington, Londres, Hong Kong, Beijing, Cingapura, Camberra, Brunei, Bangkok, Bona, Estocolmo e outros centros do poder globalista de então.



TAILÂNDIA E O PESCOÇO DO DIABO: O ISTMO DE KRA

Costuma-se dizer que no Globalistão definido pouco a pouco por golpes, guerras, atentados terroristas e engenharia social, há macro-regiões especializadas por setores econômicos. O Ocidente representaria o mundo consumidor, o Terceiro Mundo a fonte de matérias primas, a Ásia Oriental (ou Lestásia) o setor industrial, etc. Se é assim, então sem dúvida o antigo reino budista de Siam corresponde ser o bordel do mundo e o paraíso de todas as tendências sexuais bordeando a legalidade.

Durante a época colonial, a Tailândia ("Sião") foi, junto de Etiópia e Pérsia, dos poucos países não ocidentais que conservaram sua soberania sob uma monarquia tradicional. Provavelmente, tanto os ingleses (desde a Birmânia) quanto os franceses (desde a Indochina) consideraram oportuno não anexar a Tailândia a seus respectivos domínios para usá-la de Estado-amortecedor (Estado-tampão) que aliviasse a tensão entre Reino Unido e França na região, impedindo um conflito armado.

Em 1941, o primeiro ministro da Tailândia Plaek Pibulsonggram (formado militarmente na França e mais conhecido como Phibun) permitiu que os japoneses transitassem por seu território para alcançar os domínios britânicos na Birmânia e Malásia, chegando ao Índico e aproximando-se perigosamente de Cingapura e do estreito de Málaca. A Tailândia firmou um tratado militar por meio de protocolo secreto, em virtude do qual o Japão ajudaria a recuperar territórios perdidos aos franceses (no Camboja) e aos ingleses (na Malásia e Birmânia). Em 1942, a Tailândia entrou na II Guerra Mundial do lado japonês e nesse mesmo ano Cingapura foi tomada pelo Imperio Japonês. Winston Churchill qualificou o evento como "o pior desastre e a maior capitulação na história britânica". Em 1945, depois da derrota do Japão, entraram na Tailandia soldados britânicos e hindus para assegurar o controle da região.

Durante a época da Guerra do Vietnã, o capital e a influência estadounidenses entraram na Tailândia produzindo uma modernização do país e dissolvendo pouco a pouco seu modo de vida tradicional. Em poucas décadas, se consumou o que na Europa havia tardado séculos e milênios. O mundo urbano cresceu exponencialmente as custas da dissolução do mundo rural e a capital Bangkok multiplicou sua população várias vezes. Desde então, a Tailândia passou por uma vertigonosa sucessão de distúrbios, golpes de Estado e mudanças políticas patrocinadas pelo estrangeiro, incluindo a repressão por parte do exército de um movimento estudantil em 1973 e uma "revolução espontânea" (dos "camisas vermelhas") em 2010 —infiltrada por franco-atiradores como agents provocateurs—, esta em plena sintonia com as "revoluções de cores" orquestradas por Washington em toda a Eurásia.

A tendência de Bangkok nos últimos anos era inclinar-se lentamente para a China, algo lógico tendo em conta a proximidade geográfica e que a Tailândia pertence à órbita da Lestásia —embora suas relações com Índia e Irã também sejam fortes. Em janeiro de 2012, a Tailândia reconheceu a Palestina como Estado independente. Ainda, Bangkok segue sendo vitima da relação amor e ódio entre Washington e Beijing, segue oferecendo sua população como mão de obra barata para as multinacionais ocidentais e, quanto à China, seu principal interesse no país é "cortar o Pescoço do Diabo".

O "Pescoço do Diabo" é o nome local do istmo de Kra, que separa a Península Malásia (incluindo Cingapura) do resto da Indochina, bem como o Oceano Índico do ultra-estratégico e geopolíticamente tenso Mar do Sul da China, denominado pelos estrategistas do Pentágono como um dos battle-boxes da China.

Como vimos anteriormente, a China (e também Japão, Coreia do Sul e Taiwan) depende desesperadamente do Estreito de Málaca, especialmente no que diz respeito a suas importações petroleiras (ver aqui, aqui e aqui). O estreito é, desde a época da Rota das Especiarias, um chokepoint (ponto de passo obrigatório) para o tráfego comercial marítimo, pelo qual a princípios do século XIX caiu em mãos da Companhia Britânica das Índias Orientais. Cingapura se conectou rapidamente com outros enclaves comerciais britânicos no Sul da África, Egito, Golfo Pérsico, Iêmen, Índia, Hong Kong e Xangai. Organizado pela família Sassoon, o ópio fluiu as toneladas para os portos chineses causando instabilidade social e sangrentas guerras. Em 1897, o Império Britânico e a monarquia siamesa chegaram a um acordo para não construir um canal na Tailândia, a fim de proteger a posição dominante de Cingapura. Hoje, Cingapura segue sendo um enclave comercial britânico de fato, um centro de inteligência e um dos mais importantes centros financeiros do mundo, mas seu status depende da intensidade do tráfego comercial chinês que passa pelo estreito de Málaca.

Imagens do porto de Cingapura nos fornecem uma ideia da importância deste estranho enclave. A cidade-estado de Cingapura é um dos elos da antiga cadeia de influência do Império Britânico na Ásia. Exercendo contato entre o Índico e o Pacífico em um estreito funil que canalizava todo o tráfico comercial, Cingapura caiu nas mãos dos ingleses e, em 1845, se estabeleceu ali a primeira loja maçônica. Desde Cingapura, se estreitaram laços com Hong Kong e Xangai. Os Sassoon, uma família de judeus baghdadies, inundaram a China de ópio através de Cingapura, com a ajuda da Companhia Britânica das Índias Orientais. O edifício do centro da foto é do banco britânico HSBC (Hong Kong-Shanghai Banking Corporation). O HSBC fundou-se com capital procedente do tráfico de ópio [3] e teve um peso decisivo em muitos acontecimentos da Lestásia (Ásia Oriental) desde a época colonial. Depois das Guerras do Ópio, o Império Britânico estreitou laços com várias sociedades secretas chinesas de séculos e até milênios de antiguidade —as tríades ou máfia chinesa, assim como outros muitos grupos, nasceram desta interação. A China capitalista-mercantil moderna é o resultado direto da influência do comércio británico na China depois das Guerras do Ópio. 

O estreito de Málaca é a lifeline ou linha vital das economias asiáticas (China, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, etc.). Em sua zona mais crítica (o estreito de Cingapura), o estreito não é muito profundo (25 m) e o tamanho máximo para que um navio possa transitar é da chamada classe Malaccamax. Alguns navios (particularmente alguns petroleiros e transportes de containers) excedem o Malaccamax, e devem se dirigir a outros estreitos. Como o próximo estreito é o indonésio de Sunda (onde está situada a capital indonésia de Jacarta), ainda mais raso (20 m), os barcos mais mastodônticos devem procurar outros estreitos indonésios, como Lombok. Isso adiciona quilômetros à rota, aumentando os custos de transporte e, portanto, o preço final de produto transportado.

A China estabeleceu seu Colar de Pérolas para dar segurança a seu tráfego marítimo, mas também intenta desesperadamente aliviar um pouco sua enorme dependência do estreito de Málaca para que suas mercadorias e fontes de energia não transitem por uma torneira controlada pelo atlantismo. Tentou sacar rotas terrestres (especialmente através do Paquistão e de Mianmar), mas parece que todos os seus intentos de sair ao Oceano Índico são rapidamente frustrados pelo atlantismo na forma de desestabilizações territoriais ou tratados diplomáticos. Isso deixa à China a opção de criar um novo estreito de Málaca, sob seu controle: escavando um canal no Istmo de Kra. A outra opção seria estabelecer portos, refinarias, terminais de gás natural, etc., de ambos os lados do istmo, e conectando estas instalações mediante um corredor comercial que incluiria um gasoduto, um oleoduto, uma via férrea e uma rodovia. O projeto do corredor teria 44 km, uma largura de 500 m e dotado de rodovias, uma para cada sentido. De tal modo, as mercadorias poderiam saltar desde o Mar de Andamão (Índico) ao Golfo de Tailândia (Pacífico). O projeto de corredor comercial se encontra atualmente estagnado devido as… preocupações ambientais.

Click para ampliar. Projetos para um canal e/ou corredor comercial no Istmo de Kra. Os grandes prejudicados regionais são Malásia, Indonésia e, especialmente, Cingapura, e portanto, indiretamente Reino Unido e Estados Unidos. A ideia de um canal na Tailândia é tão antiga quanto o rei siamês Narai o Grande, que no século XVII já mantinha relações diplomáticas com a França e pediu ao engenheiro francês Lamar que investigasse a possibilidade de iniciar a obra. Em 1897, o Império Britânico e a monarquia siamesa concordaram em não construir o canal para proteger a posição dominante de Cingapura. 

Este projeto diminuiria a importância a Cingapura de modo similar ao ocorrido com a Cidade do Cabo quando da construção de Suez, ou com o estreito de Magalhães quando da abertura do canal do Panamá, ou ainda com a Dinamarca quando do canal de Kiel. Em suas diversas versões, o canal/corredor tailandês diminuiria, em relação a Málaca, entre 960-1300 km (de um a três dias) da rota entre o Índico e o Pacífico. E dependendo da profundidade, diminuiria entre 2.500-3.000 km (quatro a cinco dias) em relação ao estreito de Sunda, e de 3.000-3.500 km (cinco a sete dias) em relação ao estreito de Lombok. Os proponentes afirmam que um oleoduto cortaria os custos de transporte petroleiro na Ásia em 0.50 dólares por barril, e o gasoduto em 3 dólares por metro cúbico de gás. Assim, se converteria sem dúvida na pérola mais importante do colar chinês e numa "zona econômica especial" de importância global. Seria uma revolução importante na Rota das Especiarias e provocaria uma nova ordem regional.

A construção do canal levaria de cinco a sete anos, teria um custo de 20 a 25 bilhões de dólares (em comparação, a arrecadação do tesouro público espanhol em um ano é de 100 bilhões de euros) e empregaria 30.000 operários. Segundo um informe interno preparado para o então Secretário de Defesa Donald Rumsfeld e publicado no "Washington Times" em 2005, a China —especialista em infraestruturas hídricas e similares desde milênios atrás— se oferecera para custear o valor da obra, incluindo refinarias e instalações portuárias completas, uma pista de aterrissagem e uma base naval, como parte de sua estratégia do "colar de pérolas", bases avançadas e segurança energética. A China já havia contribuído para melhorar as infraestruturas portuárias de Laem Chabang na Tailândia. Se os governantes da Tailândia ainda não se decidiram pela construção do canal é porque estão comprados pelos governos da ASEAN e pelos interesses de Londres e Washington. Alegam impacto ambiental, custos enormes ou que o canal fragmentaria a Tailândia em duas, separando as minorias muçulmanas da malaia do Sudeste [4] e convertendo a Península de Malásia numa ilha de fato. Segundo as "teorias da conspiração", os políticos tailandeses são regularmente subordinados por Cingapura e Malásia para votarem no parlamento contra a construção do canal. Estas teorias não são deprezíveis dada a enorme dependência econômica de ambos os países (a Malásia possui seu própio hub comercial em Málaca: Port Klang ou Port Swettenham) do tráfico comercial pelo estreito.

É indiscutivel que um canal tailandês reduziria drásticamente a distância das rotas marítimas, o tempo de transporte e, portanto, os custos finais, mas se o projeto se concretizar na Tailândia, tanto Malásia como Cingapura e Indonésia sofreriam um enorme impacto econômico, onde os arranha-céus de Cingapura só serviriam como ninhos de gaviotas, a indústria naval cingapurense falharia, e Estados Unidos e Reino Unido sofreriam um golpe tremendo, inclusive com potencial de gerar um conflito armado naval na região. Além do mais, a Armada e a frota mercante chinesa obteriam acesso a uma vasta continuidade marítima que vai desde o Mar do Sul de China até o Cabo da Boa Esperança e os estreitos de Ormuz e Mandeb.

O canal de Kra é exemplo de como os interesses do eixo angloamericano atlantista colidem com os interesses do lucro, do capital e da globalização sem pátria e sem fronteiras. Para um capitalista da era da globalização, o dinheiro é cego e não tem pátria. O canal de Kra daria mais benefícios às multinacionais, mas não convem à política exterior da anglosfera. Sabotando os esforços chineses no Paquistão, Índia, Mianmar e Tailândia, o atlantismo mantem o status quo, forçando toda a Lestásia a depender de Cingapura e seu império regional: a ASEAN.



BIRMÂNIA (MIANMAR)

Mianmar é a rota mais curta desde a dinâmica costa Leste da China até o Oceano Índico, pelo qual este parágrafo é dos mais importantes desta serie de artigos. Durante décadas, a Birmânia compunha a lista negra das potências atlantistas. Em 2005, a então Secretária de Estado Condoleeza Rice incluiu na lista de "postos avançados de tirania", o exército birmano, também descrito como o lado mau no último filme de "Rambo". O país até sofreu uma revolução colorida espontânea, chamada "revolução do açafrão", promovida pelos EUA, em 2007 —principalmente porque nesse mesmo ano, a PetroChina e a Birmânia haviam firmado um memorando de entendimento segundo o qual a Birmânia forneceria gás natural à China. A revolução do açafrão também coincidiu casualmente com o Malabar 07, manobra naval da US Navy com as armadas de Índia, Japão, Cingapura e Austrália.

Contudo, numa brusca mudança política, a Secretária de Estado Hillary Clinton (a primeira do cargo a viajar à Birmânia desde 1955), manifestamente morta de sono, visitou o país em novembro de 2012, junto com Obama, que se converteu no primeiro presidente estadounidense a visitar o país, falando de um tal "processo de reforma democrática e econômica" que abriria oportunidades de "desenvolvimento" para o país. Clinton até recomendou literalmente às multinacionais estadounidenses que invertessem na Birmânia: o clima havia mudado, agora havia "abertura ao exterior" e ansiedade de deixar-se violar pela globalização. O que representa realmente essa guinada geopolítica verdadeiramente orwelliana, os inimigos passaram a ser amigos ou ao menos não-inimigos? O que esconde o vicioso dialéto diplomático do presidente estadounidense e o jet lag da dignatária? A resposta a ambas as perguntas é a crescente influência de Beijing na região e sua relação de amor e ódio com Washington.

Acima, Rambo confraterniza com um talibã afegão (então chamado mujahideen) no filme "Rambo III"… hoje EUA combate os talibãs. Abaixo, "John Rambo" se encarrega de um militar birmanês como somente ele sabe fazer… hoje, os EUA estreitam relações diplomáticas com a Birmânia. 

Mianmar era um antigo Estado budista que todavia no século XVII adquire força suficiente tanto para infligir derrotas tanto aos portugueses quanto ao reino de Sião. Durante a era colonial, os britânicos foram adquirindo rapidamente influência na região, estabelecendo a petroleira Rangoon Oil Company (posterior Burmah Oil Co) em 1871, e anexando a Birmânia em 1886, que passa a formar parte de uma vasta continuidade territorial limitada só por duas antigas monarquias tradicionais que retiveram sua independência: Pérsia (Irã), a oeste, e Sião (Tailândia), ao leste. O domínio britânico chocou-se em seguida com as populações locais, firmemente apegadas a suas tradições budistas, que motivaram grandes revoltas até a década de 1930. Como havia se passado com o Islã no Egito, os britânicos se deram conta da enorme vantagem estratégica de cooptar as autoridades religiosas-sociais, neste caso os budistas (assim como na atualidade, com o Dalai Lama formando claramente parte da esfera de influência do atlantismo). A Birmânia, rica em ópio, passou a integrar a rede de narcotráfico de todo o Sudeste Asiático.

Se a cocaína é uma das grandes protagonistas secretas da geopolítica da IberoAmérica, o ópio é na Asia. As duas narco-zonas assinaladas (Crescente Dourado e Triângulo Dourado) têm muito em comum: ambas compartilham fronteira tanto com China quanto com Índia, ambas haviam sido ocupadas pelos EUA de uma forma ou outra (Vietnã, Afeganistão) e ambas se encontraram no passado sob a influência do Império Britânico e do narcotraficante David Sassoon. Nota-se como o Camboja caia fora do chamado "Triângulo Dorado". 

Em março de 1942, as tropas japonesas entraram na Birmânia e a administração britânica colapsou. Os britânicos organizaram unidades de elite conhecidas como Chindits, que assoladas pela malária e desenteria, operavam muito atrás das linhas japonesas, sendo em muitos sentidos precursores das modernas unidades de operações especiais. Uma unidade estadounidense comparável, os Marauders de Merrill, se uniu a ela em 1943. Enquanto, o antigo tráfico de ópio na zona, tradicionalmente em mãos britânicas, serviu para nutrir a resistência anti-japonesa na China, financiando as primeiras repúblicas soviéticas do país: Jiangxi e Yan’an [5].

Os japoneses perderam 150.000 homens na Birmânia, dos quais só 1.700 prisioneiros. Isto sugere que os militares japoneses, com seu imaginário coletivo fortemente influenciado pelo arcáico arquétipo samurai, costumavam preferir a morte no combate antes que a rendição. Em 1948, a Birmânia obteve a independência do Reino Unido, seguindo o processo de deseuropeização do mundo que se desencadeou no após II Guerra Mundial. Mas diferentemente de outras ex-colônias, a Birmânia não passou a formar parte da Commonwealth.

Em 1962, um golpe de Estado colocou a Birmânia sob o controle de uma junta militar que nacionalizou a indústria, pôs o grosso da economia sob controle estatal e governou o país desde então. Durante toda a Guerra Fria, a Birmânia foi um país instável e violento dominado por uma larga sucessão de siglas insurgentes que, como as guerrilhas na Colômbia, controlavam e controlam o cultivo e tráfico de ópio nas frondosas regiões interiores e fronteriças do país. Em 1996, ano que "supostamente" devia marcar um golpe mortal ao narcotráfico e iniciar a derrota da narco-guerrilha, a embaixada dos Estados Unidos em Rangum publicou um documento intitulado "Country commercial guide" na qual afirmou que as exportações ilegais de ópio birmano produzem tantos ingressos quanto as exportações legais do país (incluindo petróleo e gás natural). Afirma ainda que as inversões em hotéis e na infraestrutura da Birmânia procedem de organizações criminosas dedicadas ao cultivo e tráfico de ópio.

Densidade de cultivo de papoula na Birmânia, em ha/km2. A Birmânia foi o país líder em produção de ópio até que foi superado pelo Afeganistão depois da invasão da Aliança em 2001. A Birmânia (e a Tailândia como estação intermediária) é também um macrolaboratório de importância global na fabricação de drogas sintéticas em geral e metafetaminas em particular. Na volátil e montanhosa fronteira birmano-tailandesa, existe toda uma rede de refinarias nas quais o ópio se transforma em heroína. Aqui trabalham ativamente diversas narcomilícias, as tríades e outras máfias chinesas, tanto muçulmanas quanto não-muçulmanas. Durante décadas, os bancos de Cingapura e Hong Kong (incluindo o HSBC) se encarregaram dos ingressos procedentes destas atividades. 

Outro problema da Birmânia, este bastante recente, tem a ver com o ataque da minoria étnica rohingya por parte da maioria rakhine, que ocorre no estado birmanês de Rakhine (conhecido também como Rohang ou Arakan) desde 2012, embora o conflito tenha raízes mais antigas. Os rohingya são de origem e idioma indo-ário, mais aparentados dos povos da Índia e Bangladesh do que com as etnias da Birmânia, e são muçulmanos. Os rakhine, por sua vez, são sino-tibetanos e budistas.

O estado de Rakhine no marco birmano, uma costa que domina o Golfo de Bengala e na qual se entrecruzam as esferas de influência da Índia e China. Nota-se que neste estado se encontram Sittwe (Akyab) e Kyaukpyu —duas das importantes pérolas do colar chinês. Sittwe se encontra em frente a Calcutá, a maior cidade e porto da Índia. 

A desestabilização do estado de Rakhine é necessária para o atlantismo por vários motivos:

1. Gasoduto, colar de pérolas chinês e outras inversões estrangeiras. A rota desde a costa birmana até a cidade de Kunming, na província chinesa de Yunnan, pode ser considerada como uma antiga "rota do ópio" e agora parece que os chineses querem cometer a heresia geopolítica de transportar gás natural no lugar do ópio.

Na ilha de Ramree, onde ingleses e japoneses travaram uma crucial batalha durante a II Guerra Mundial (se diz que nos pântanos ao redor da ilha, os crocodilos devoraram 400 soldados japoneses), os chineses estão construindo diversas instalações e dutos para receber petróleo e gás natural da África, do Golfo Pérsico e do Golfo de Bengala, e transportar estas mercadorias através do coração da Birmãnia até a cidade chinesa de Kunming. Também se planeja para 2015 uma estrada e via férrea de alta velocidade. Obviamente, o projeto é comparável ao de Gwadar (Paquistão) e ao Kra (Tailândia), em sua intenção de evitar o traiçoeiro estreito de Málaca.

Na vizinha cidade costeira de Kyaukphyu, os chineses estão construindo um porto de águas profundas e um terminal petroleiro, enquanto que, mais ao norte, na tambem costeira Sittwe os chineses mantêm um centro de inteligência e espionagem eletrônica (orientado especialmente, se supõe, ao tráfico marítimo) desde 1994, e também desenvolvem um porto e base naval. Preocupantemente, em Sittwe os hindus estão construindo um terminal energético pensado para alimentar o crescimento de Bangladesh e do estado hindu de Bengala Ocidental, de 90 milhões de habitantes. Abrindo o fluxo energético na Birmânia, Nova Delhi pode também dinamizar a isolada e subdesenvolvida região do nordeste da Índia, proporcionando-lhe uma saída marítima e, talvez, aplacando a enorme quantidade de guerrillas e insurgências (incluindo uma "cristã-maoísta") que infestam a zona.

Como sempre, os oleodutos e gasodutos levantam paixões na Eurásia e especialmente fora dela —Estados Unidos e Reino Unido vêem esses projetos terrestres como uma ameaça a seu controle sobre as rotas marítimas. A China National Petroleum Corporation começou a construir o gasoduto sino-birmano em 2009, e espera-se que quando estiver completo transporte 12 milhões de toneladas bruto ao ano —algo como 10% das importações petroleiras chinesas. Se estes projetos se realizarem, Kunming se converterá no principal hub comercial do Sudeste Asiático, onde convergerão todas as ferrovias, estradas, gasodutos e oleodutos da Birmânia, Tailândia, Laos e Vietnã. O perdedor regional seria, de novo, Cingapura. A China tem sido pressionada para cancelar o projeto. 

2. Romper a continuidade territorial do mundo muçulmano no Sudeste Asiático. O mundo muçulmano é um bloco que vai desde o Saara Ocidental até a Indonésia, mas sua continuidade se vê desafiada em certos pontos. O mais óbvio destes pontos é o corte geopolítico conhecido como Estado de Israel, mas existe outro corte em andamento no Sudeste Asiático: o estado birmano de Rakhine, uma delicada franja costeira onde os muçulmanos são minoria e tem sido atacado por radicais budistas com a intenção de limpeza étnica.


Em verde: importante população muçulmana. Em vermelho: fronteiras do mundo muçulmano. Em negro: pontos de ruptura do mundo muçulmano. O estado birmano de Rakhine representa a fronteira entre o Islã propiamente eurasiático e o Islã "indopacífico". O atlantismo parece interessado em erradicar a minoria muçulmana de Rakhine (os chamados rohingya, com uma população de um milhão) e cultivar este estado como uma cunha geopolítica. 

3. Pirataria e militarização do estreito de Málaca. O narcotráfico, graças a seus contatos com a pirataria regional, serve a outro fim: proporcionar uma desculpa para militarizar o estreito de Málaca e águas circundantes.

Sittwe, o centro dos conflitos étnicos em Rakhine e berço dos "monges políticos" rebeldes desde a época do domínio britânico, é o epicentro de várias inversões chinesas e hindus, incluindo um porto e uma possível base naval sendo construída pela China e um importante centro de espionagem electrônica chinês. Sittwe pode ser uma ponte ou uma brecha entre China e Índia, dependendo da manipulação. Tendo isto em conta, resulta muito interessante prestar atenção à reação da "comunidade internacional" e de seus agentes, ante a violência étnica contra a minoría muçulmana rohingya por parte dos fundamentalistas budistas. A "comunidade internacional" (leia-se ONU, EUA, Reino Unido e outros poderes globalistas) havia mantido um silêncio sepulcral sobre esses distúrbios, chamando a atenção apenas sobre as violações dos direitos humanos cometidas pela junta militar birmana. Mas a projeção do poder atlantista na Birmânia não só vem na forma de condenações diplomáticas, mas também em apoio a insurgentes ou grupos radicais. A penetração atlantista também vem pela ação das ONGs e dos agentes que operam dentro da Birmânia com fundos estadounidenses. Um destes grupos é a NED (National Endowment for Democracy), uma fachada legal da CIA que atua sob as ordens do Departamento de Estado dos EUA, a qual vimos no Egito apoiando a Irmandade Muçulmana e no Baluchistão aos separatistas fundamentalistas. A NED geralmente utiliza palavras de ordem inócuas e cínicas como "liberdade de informação", "transparência", "democracia", "luta não-violenta", "abertura" e "fortalecimento de ONGs" para encobrir as atividades claramente subversivas em que está envolvida.

Se o leitor nunca concebeu a existência de grupos budistas radicais e violentos com a aprovação do Dalai Lama, talvez deveria pensar de novo. Na Birmânia, estes grupos tem linchado centenas de muçulmanos rohingya, expulsando-os de suas casas e até comparecendo aos campos de refugiados para bloquear a entrega de ajuda humanitária. Estes monges se encontram apoiados pela Open Society Institute do especulador nova iorquino George Soros, pelo National Democratic Institute for International Affairs e, especialmente, pela National Endowment for Democracy (NED), uma organização sustentada pelo US State Department ao que podemos ver apoiando a Irmandad Muçulmana no Egito. Ao que parece, as radicalizações sectárias na Ilha Mundial não fazem mais que beneficiar o eixo atlantista, que é amigo só das etnias e/ou religiões que lhe convem num contexto regional e temporal determinado. Estes monges fundamentalistas formam a base da Liga Nacional pela Democracia (NLD), liderada por Aung San Suu Kyi [6]. 

Graças às manobras destes grupos de poder sustentados por Washington, a "opositora" birmana Aung San Suu Kyi (as vezes, abreviada como ASSK) saltou à fama internacional e obteve o prêmio Nobel da paz em 1991, compartilhando a duvidosa honra com personalidades tão sombrias como Henry Kissinger, Obama, Elie Wiesel, Nelson Mandela, Gorbachov e a UE. Desde então, Suu Kyi é uma santa laica da globalização ao lado dos já mencionados, além de Gandhi, Martin Luther King, Rigoberta Menchú, Dalai Lama (um fantoche do atlantismo que tem muita influência na budista Birmânia), Desmond Tutu, Liu Xiaobo, Ai Weiwei e outros. Todos eles são/eram basicamente mafiosos apoiados por fortes poderes globalistas com implacáveis propósitos geoeconômicos e comerciais, além de seres humanos vaidosos e imprestáveis moralmente. Isto resultará em muitas vítimas em nome da nova religião universalista, igualitária e homogeneizadora, patrocinada pela UNESCO.


Estas "fundações privadas" não só operam em países estrangeiros para forçar mudanças geopolíticas (por exemplo, a "primavera árabe" de 2011 ou as "revoluções de cores" na Eurásia), mas que se envolvem em operações de engenharia social cujo objetivo é mudar o comportamento de povos inteiros, geralmente com finalidades de dominação por parte da Alta Finança. Assim, a Ford Foundation foi um dos motores do que seria chamado de "libertação da mulher", junto com a CIA. 

No caso de Aung San Suu Kyi, podemos destacar vários fatos obscuros que vem a roubar-lhe essa aura de altruismo e santidade que Washington colocou sobre sua cabeça por meio de photoshop propagandístico:

• Suu Kyi, uma antiga agente da ONU com amplos e poderosos contatos internacionais, nunca havia protestado pela violência étnica contra os muçulmanos rohingya (700 mortos, 1.200 desaparecidos, 90.000 deslocados e milhares de casas destruídas), aos quais eles fazem a vida impossível no intento de expulsar-los do estado de Rakhine. Numa entrevista ao periódico britânico "The Guardian" em junho de 2012, declarou que "não sabia" se os rohingya podiam ser sequer considerados cidadãos birmanos.

Somente protestou pelas repressões da junta militar quando esta reprimiu protestos anti-chineses —por exemplo, durante manifestação em mina de cobre chinesa em Monya em novembro de 2012, na qual foram feridos vários monges budistas. A Liga Nacional pela Democracia se revela aqui como um ramo do Depatamento de Estado dos EUA, cujo objetivo é acabar com o nacionalismo birmano e com os líderes que miram pelo interesse nacional da Birmânia, para instalar um regime cliente de Londres e Washington. O material propagandístico financiado pelo Departamento de Estado sugere que a junta militar birmana é vista como uma armadilha para a integração da Birmânia como mais uma província do Globalistão. Assim, a Associated Press descreveu esta imagem como uma manifestação de monges budistas contra a violência étnica, quando em realidade buscam é a expulsão dos refugiados da Birmânia, e só protestam contra o uso da força por parte do exército birmano para evitar que os refugiados sejam atacados.

• Suu Kyi mostrou sua vasalagem ao império atlantista tentando remover os investidores das firmas chinesas e desestabilizando os projetos chineses (como a mencionada mina de cobre e a represa de Myitsone), criticando a MOGE (Empresa de Petróleo e Gás do Myanmar, nacional), enquanto fala maravilhas de petroleiras ocidentais como Chevron, Total, Shell e ConocoPhillips.

Depois de sua fama de "lutadora não violenta" e "ativista dos direitos humanos", Suu Kyi em realidade esconde uma mulher criada desde pequena ao amparo da diplomacia internacional, a qual jamais se havia posto a mão em cima —a diferença de dezenas de milhares de birmanos— e que havia elogiado sua "prisão" confortavelmente em sua própia e luxuosa casa. O rosto de Suu Kyi é, em realidade, o da interferência do atlantismo nos assuntos internos do continente eurasiático, numa projeção de "poder brando" em consonância com uma opinião pública ocidental decadente, pacifista e afeminada, e na perseguição das etnias que discordam da globalização no Sudeste Asiático, como os muçulmanos rohingya, aos quais Suu Kyi não considera sequer cidadãos birmanos, expostos ao saque e ao abuso por parte de grupos radicais budistas. A revista "Time" é propiedade do mega-consórcio midiático Time Warner Inc. de Manhattan, o segundo gigante mundial dos meios de comunicação depois da Disney.

A queda do Império Britânico foi compensada pela manutenção do sútil império plutocrático da City de Londres. A Birmânia pertenceu ao Reino Unido durante a era colonial, o pai de Suu Kyi "negociou" a independência da Birmânia com os britânicos, e ela mesma não podia deixar de prestar homenagem a seus verdadeiros mestres. Aqui se deixa ver com a família real britânica. 

Existem outros pontos sensíveis e frentes de desestabilização na Birmânia:

• As Ilhas Cocos pertencem a Birmânia e, junto com as Ilhas Andamão e Ilhas Nicobar (Índia), das quais estão separadas por apenas 18 km, separam o chamado Mar de Andamão do resto do Golfo de Bengala. As Ilhas Coco pertencem de fato a China, que havia construído importantes infraestruturas de reconhecimento e inteligência eletrônica, dando a Beijing não só a possibilidade de monitorar todo o tráfego marítimo do entorno, mas também de espionar as atividades militares da Índia, incluindo testes de mísseis.

O arco de Andamão. Se a China possui instalações militares e de espionagem nas Ilhas Cocos, a Índia possui instalações comparáveis nas Ilhas Andamão, a somente 18 km. As ilhas Coco, Andamão e Nicobar (Chowara) formam um cinturão insular que tende a fazer uma ponte entre a Birmânia e a província autonoma indonésia de Aceh, castigada tanto pelo tsunami de 2004 como pelo terrorismo e a Sharia islâmica. Aceh também abriga uma base militar estadounidense, a Sultan Iskandar Muda Air Force Base. O arco de Andamão preside a entrada ao estreito de Málaca desde o Ocidente. O estado de Rakhine pode ser considerado como uma prolongação do arco. Tal como o Cinturão de Fogo do Pacífico, o Arco de Andamão coincide com uma falha geológica. 

• Os projetos hídricos chineses são outro vetor de penetração da influência de Beijing na Birmânia que o atlantismo tenta frustrar a todo custo. Há ao menos 45 multinacionais chinesas envolvidas em 63 projetos hidroelétricos na Birmânia. A China reune capacidade no controle das águas desde milênios, e não só na construção de barragens, mas também no controle de inundações, escavações de canais e condicionamento de rios para a navegação. A interferência do atlantismo nos "assuntos hídricos" da China tem sido particularmente evidente no caso da barragem de Myitsone, no rio Irrawaddy, no instável estado de Kachin, ao norte do país. A barragem, destinada a ser o décima quinta maior do mundo, e poderia produzir de 3.600 a 6.000 megawatts de eletricidade (compara-se com a central térmica de Las Puntes na Espanha, com 2.200 MW, a maior chaminé da Europa e com poluição sendo despejada continuamente), principalmente para o uso chinês (pagando impostos ao governo birmano) na província de Yunnan. A China havia previsto o custo da obra em mais de 4 bilhões de dólares.

O projeto pronto se converteu num pivô diplomático para os EUA e a "comunidade internacional". Várias ONGs estadounidenses, junto com Suu Kyi, conspiraram para deter o desenvolvimento dos rios birmanos por parte da China, especialmente a barragem de Myitsone: a Kachin Development Networking Group e a Burma River Network, esta apoiada pela International Rivers, por sua vez financiada pelas "fundações" como a Ford Foundation, Sigrid Rausing Trust, Tides Foundation e a Open Society Institute (agora chamada Open Society Foundations u OSF) de George Soros. Os motivos que alegaram foram "sociais" e "ambientais". É inegável que a civilização moderna está carregando o planeta com a falácia do "crescimento econômico" e com seus projetos heréticos de domínio da Natureza sem submeter-se a ela, mas o que chama a atenção aqui é a contradição destes organismos: enquanto que os EUA mantem 75.000 barragens, parece que a Birmânia não pode construir mais de 40 sem deixar nervosos Wall Street e a City.

Localização do rio Irrawaddy e da represa de Myitsone, no estado de Kachin. 

Diz um revelador artigo de Tony Cartalucci, analista geopolítico baseado em Bangkok:

Naturalmente, a razão primária pelo quais os globalistas financiam as ONGs da "sociedade civil" é para subverter e substituir totalmente o governo soberano funcional de uma nação designada. Então entrelaçam sua "sociedade civil" com uma rede de administração global homogênea que, por sua vez, responde a "instituições internacionais" artificiais, como o Tribunal Criminal Internacional ou a ONU. Quando se estabelece plenamente o financiamento estrangeiro, este Estado assume a agenda de seus patrocinadores estrangeiros, geralmente sob a cobertura de inquietudes sobre direitos humanos ou meio ambiente, ou no caso da barragem de Myitsone, de ambos.

Suu Kyi não podia faltar a este evento tão crucial e fez o que pode para agitar contra a construção da obra. Em abril de 2011, dez bombas explodiram perto da barragem, e em setembro, a britânica BBC pode anunciar orgulhosamente colocar em "standby" o projeto hídrico, agradecendo a vários atores regionais, incluindo a Kachin Independence Organization (milícia separatista de Kachin), empenhados, graças ao dinheiro da Foreign Social Development Aid e similares quimeras, na balcanização da Birmânia. Meses depois, o "Wall Street Journal" (17/11/2011) denominaria a Birmânia de "o último grande mercado da fronteira da Ásia", descrevendo seu "potencial" como "muito grande para que os investidores a ignorem".

A detenção do projeto hidroelétrico foi claramente o pedágio que teve que pagar a diplomacia birmana para congraciar-se com o Ocidente. Quando Naypyidaw (a capital birmana) levou a sério a medida, seguramente intimidada já pela fulminante destruição da Líbia, os EUA optaram por aprovar os "esforços em democratizar" da Junta militar birmana, removendo o país de sua lista de inimigos mortais, pondo um embaixador pela primeira vez em 22 anos e mandando a Secretária de Estado Hillary Clinton em soporífera visita oficial. Clinton inclusive chegou a declarar: "Hoje dizemos ao negócio americano: invistam na Birmânia!" (NYT, 17/5/2012), sugerindo que "finalmente" o país havia se "aberto" ao comércio internacional. Pouco depois, o britânico William Hague fez outro tour diplomático, sendo o primeiro ministro de assuntos exteriores de seu país a visitar Birmania em 56 anos.

Desde o acontecimento crucial em 2011, as autoridades birmanas haviam começado a vender edifícios governamentais, instalações portuárias, suas linhas aéreas nacionais, minas, terras de cultivo, a rede de distribução de combustivel e as fábricas de refrescos, cigarros e bicicletas. Inclusive se abriram aos poucos as portas da saúde e da educação aos investidores privados. Também se aprovou uma lei de investimento estrangeiro para permitir a entrada de bancos e companhias de telecomunicações. A Birmânia inclusive tem sido eleita para acolher a cúpula da ASEAN em 2014 e sua integração na organização começará em 2015.

Apesar destes gestos, os EUA renovaram em 2012 as sanções econômicas contra a Birmânia, possivelmente em parte devido as boas relações do país com o proscrito da globalização, a Coreia do Norte, e definitivamente também porque a China segue adiante com o gasoduto.

Kachin é um dos estados birmanos fronteiriços com a China. Este estado em particular é cruzado por vários rios de origem tibetana, nos quais a Asia World Company, a China Power Investment Corporation e o Ministério de Energia Elétrica da Birmânia estão ativamente implicados em diversos projetos hídricos. Por Kachin também transitariam todos os projetos energéticos e comerciais sino-birmanos que temos visto (gasoduto, oleoduto, estradas, ferrovias, corredor comercial). É suficiente dizer que, num esforço por romper o elo natural formado pelos rios sino-birmanos, Kachin está sendo desestabilizada pela chamada Kachin Independence Organization (KIO), uma guerrilha separatista.

O projeto de Dawei. A construção pelos japoneses de uma ponte sobre o rio Kwai em 1942-43 —utilizando como mão de obra escrava os prisioneiros aliados para completar a chamada ferrovia da morte— é um dramático testemunho histórico sobre as dificultades geográficas na fronteira birmano-siamesa. Sete décadas despois daqueles eventos, o Japão voltou à região, desta vez como patrocinador de um novo corredor comercial no qual a cidade costeira birmana de Dawei (antiga Tavoy) será uma importante chave. Dawei se encontra em uma região isolada e pouco desenvolvida da Birmânia, que só recentemente se relacionou com o resto do país com uma ferrovia e uma estrada. Contudo, num futuro próximo, Dawei pode converter-se em um dos extremos de uma ponte terrestre que viria a ser uma versão mais setentrional do canal de Kra, para conectar-se, entre outros, com um porto tailandês desenvolvido pela China, o Laem Chabang, mencionado acima. De momento, um navio leva 10 dias de Laem Chabang aos portos orientais da Índia. O projeto de Dawei poderia encurtar a viagem em três dias. E se falamos de mercadorias chinesas e japonesas, o recorte é ainda maior graças aos prolongamentos do corredor no Camboja e Vietnã.

Quando Henry Kissinger convenceu Nixon para empreender sua campanha de bombardeios secretos no Camboja, provavelmente teria em mente evitar que se chegasse a consolidar, especialmente sob influência soviética, um espaço econômico similar ao que vemos na imagem. Esse corredor comercial evita o fatal, pirateado e congestionado estreito de Málaca e seu guardião regional, Cingapura, ofertando ao comércio internacional uma rota muito mais curta e rápida entre o Mar do Sul da China e o Índico. O Arco de Andamão adquirirá enorme importância se este projeto levar-se ao término com exito. Se prevê promulgar leis para converter Dawei em uma Zona Econômica Especial —a primeira da Birmânia. Nota-se também o projeto tailandês de construir uma ferrovia desde Pak Bara até Kunming, que pode ser interpretado como outra estratégia da China para saltar ao estreito de Málaca, diversificar suas rotas e isolar Cingapura. Nota-se como Bangkok se encontra na encruzilhada das rotas. Fonte do mapa: Italian-Thai Development e "Bangkok Post". 

Como parte de um projeto de dez anos, um total de 80 bilhões de dólares e que dará trabalho a 30.000 trabalhadores, prosseguem as escavações de vinte túneis nas montanhas da complicada fronteira birmano-siamesa, esvaziando-se 40 mil hectares de terreno em Dawei (incluindo 250 km2 para indústrias) que serão preenchidos com refinarias, complexos petroquímicos, usinas, rodovias, ferrovias, oleodutos, gasodutos e um porto de águas profundas. O principal promotor do projeto é a Ital-Thai Industrial Co., uma multinacional baseada na Tailândia e com participação italiana, mas também tem a participação do veterano Japão, que já se faz presente na Birmânia através de multinacionais como Hitachi, Marubeni e Sojitz, e que também está hereticamente interessado em diversificar suas rotas comerciais, bastante dependentes de Málaca. Esta tendência de Tóquio a envolver-se na Lestásia (Ásia Oriental) nunca havia sido do agrado do atlantismo.

É de se prever que o atlantismo alimentará insurgências locais em pleno corredor comercial, especialmente a guerrilha separatista de Karen na Birmânia, que controla parte da região por onde passará a estrada. O atlantismo seguramente assustará os investidores questionando a confiança do Estado birmano, apresentará dúvidas ambientais e trará a questão dos direitos humanos da população local deslocada pelas obras. Se o projeto de Dawei e o corredor comercial ao Mar do Sul da China chegar a se completar, toda a paisagem do comércio internacional mudará drásticamente e as fichas do Sudeste Asiático serão reorganizadas de forma radical [7].

Como temos visto, a Birmânia é simplemente a rota mais curta desde os grandes centros econômicos chineses até o Índico. Tem quase 15.000 km de costa no Índico, quase tanto como os 17.000 km da vizinha Índia. Como tal, é inegável que ao eixo atlantista convém a desestabilização e/ou bloqueio e/ou conquista diplomático-comercial do país, assim como convém a desestabilização do Paquistão. Os motivos são idênticos: evitar que a China obtenha a saída pelo Índico sobrepassando o estreito de Málaca e seu parasita financeiro Cingapura, e frustrar a construção de um bloco regional econômico controlado por Beijing —um império chinês bi-oceânico (indopacífico). O atlantismo manipula todos os elementos possíveis na zona (diferenças étnicas e religiosas, grupos terroristas, fundamentalismo, atentados, milícias narcoguerrilheiras, sabotagem de projetos hídricos chineses, etc.) e nada satisfaria mais Washington se a Birmania se instabilizar-se ao ponto de que tivesse que estabelecer uma base militar estadounidense no país —quanto mais perto das plantações de ópio na fronteira com a China, melhor. E, como ocorre na Colômbia ou no Afeganistão, essa presença militar não reduziria totalmente o narcotráfico, mas o impulsionaria. Se a isto somarmos que a Birmânia é rica em petroleo, gás natural, carbono, zinco, cobre, níquel, pedras preciosas, lenha e potencial hidroelétrico (quase 40.000 megawatts), assim como depósitos de urânio, o panorama se complica mais.

As intenções do atlantismo no Sul da Ásia provavelmente caminham na direção de roubar o gás da Ásia Central e do Cáspio e mandá-lo ao Índico e Sudeste Asiático, para unir a Índia com a Asean, criando um bloco regional que detenha o avanço da China pelo Sul. Contudo, seria necessário que mudasse muito o clima geopolítico na região para que isto ocorra. A principal multinacional interessada neste projeto seria a Unocal (atualmente parte da Chevron, uma das muitas filhas da antiga Standard Oil dos Rockefeller), que possui ações na maioria dos gasodutos e que tem estado muito envolvida no Afeganistão. 



BANGLADESH: O PESCOÇO DE FRANGO

O que melhor descreve a importância de Bangladesh não é tanto sua extensão, mas sua população: o país tem 150 milhões de habitantes (a maioria muçulmanos), mais que a vasta Rússia. Tem, portanto, a duvidosa honra de ser dos Estados mais densamente povoados do mundo, algo representativo da reprodução irresponsável e desmensurada do Terceiro Mundo. Esta praga de crescimento demográfico e reprodução da pobreza está em plena sintonia social com sua contrapartida econômica: crescimento indefinido, mão de obra barata e dumping social, com o objetivo de que as multinacionais escravistas (incluindo a espanhola Inditex) possam vender às massas consumistas e zumbis do Ocidente um produto, geralmente têxtil, made in Bangladesh. O sistema capitalista neoliberal e globalista baseado no Ocidente é muito sensível ao que se sucede nos países como este.

As cenas acima são da capital Dhaka, mas poderiam perfeitamente ser de Calcutá ou qualquer outra cidade superpopulosa do sul da Ásia. A multiplicação humana e massificação insana que tem lugar nesta região é muito representativa de uma civilização que só pode sustentar-se artificialmente a base de cereais, hidrocarbonetos, dívidas, consumismo, contaminação, condições de vida miseráveis, escravidão, vulgarização racial e outros becos sem saída da evolução humana, agrupados sobre a eufemística etiqueta do "desenvolvimento sustentável". Este quadro social convem a alta finança: quando uma maioria se faz muito pobre, inevitávelmente uma minoria se faz muito rica. Equiparar 150 milhões de pessoas ao nível de vida da classe média do Ocidente não seria sustável em um país como Bangladesh [8]. 

Bangladesh, a rota mais curta do Tibete ao Índico, tem uma história muito entrelaçada a antiga tradição hindu (mencionada na Ramayana e na Mahabharata), aos sultãos islâmicos medievais de Bengala, a Companhia Britânica das Índias Orientais (conquistada em 1757) e as três potências nucleares modernas: China, Índia e Paquistão. O país se constituiu com o nome de "Paquistão Oriental" em 1947, sob a mesma autoridade estatal do "Paquistão Ocidental", até que uma cruel guerra os separou definitivamente em 1971.

Junto com Paquistão e Sri Lanka, Bangladesh ou "País de Bengala", é resultado da intriga britânica. Atormentando a Índia com os países muçulmanos e promovendo as lutas sectárias dentro da própria Índia, Londres evitava a aparição de um Estado hindu claramente hegemônico no Índico e sul da Ásia. No caso de Bangladesh, seu papel consiste em arrebatar à Índia uma terra plana, fértil e de costa muito acessível, que poderia unir facilmente a Índia propiamente dita com suas problemáticas e isoladas províncias orientais. Devido à Bangladesh, estas províncias só são unidas a India por uma fraixa de 30 km de largura: o Corredor de Siliguri.

As províncias do noroeste da Índia, chamadas as "Sete Irmãs", formam uma região problemática (insurgências guerrilheiras, conflitos territoriais com a China, microclima, isolada) de 40 milhões de habitantes, se encontra separada do resto do país pelo corredor de Siliguri ou "Pescoço de Frango" (circulo vermelho), um estreito corredor estreitado entre Nepal e Bangladesh, cujo domínio deve de ser uma enorme tentação para Dhaka e, através dela, para Beijing. Por "culpa" da Índia, a fronteira bangladeshiana se encontra a 22 km de Nepal, 30 km do Butão e 100 km da China. Compartilhar fronteiras com estes países faria de Bangladesh uma rota privilegiada de trânsito desde China até o Índico, e de fato, nos tempos da Rota da Seda, por Bangladesh transitava uma importante ramificação terrestre que a conectava à Rota das Especiarias. Tecnicamente, Bangladesh é a saída marítima natural das sete províncias hindus. 

Outro aspecto da interação entre Bangladesh e Paquistão é a tendência a utilizar as populações muçulmanas da Índia (com cerca de 180 milhões de muçulmanos, a Índia é o terceiro país islâmico do mundo, depois de Indonésia e Paquistão) —especialmente as do arco superpopuloso em torno da cordilheira do Himalaia— como ponte entre ambos os países, tendendo a separar a Índia da China (no Cinturão de Gelo) e a criar uma ponte terrestre entre o Mar Arábico e o Golfo de Bengala. Este conceito geopolítico havia recebido o nome de Mugalstão ou Mogulistão. Não é de estranhar, portanto, que o wahhabismo-salafismo (a mesma marca do Islã da Al-Qaeda) havia sido exportado tanto para Bangladesh quanto ao Nepal e Caxemira, estabelecendo numerosas madrassas e mesquitas irrigadas abundantemente com petrodólares saudítas. Possível meta: a paquistanização da Índia.

Populações muçulmanas da Índia. Estas populações tendem a criar uma ponte entre Bangladesh e Paquistão, isolando catastróficamente a Índia do resto da Eurásia. Esta ponte se prolonga pelo Rakhine, estratégico estado birmano, e através do Arco de Andamão, salta para a Indonésia. 

Tanto o Corredor de Siliguri como Sikkim, Nepal, Butão, Arunachal Pradesh, planície do Ganges, Caxemira, diversos territórios contestados e vários parques naturais, formam parte do Cinturão de Gelo, uma faixa geográfica que tende a conter a China no Sul e no Oeste. O Mugalistão também poderia chegar a ser uma jogada mestra da China para isolar a sua rival hindu, mas em razão da manipulação do fundamentalismo islâmico pelo atlantismo é de se prever que estas populações muçulmanas sejam utilizadas como pivô para as manobras geopolíticas do eixo atlantista. O Mugalistão seria um Estado que ofereceria ao comércio internacional a passagem do Mar Arábio ao Golfo de Bengala evitando expressamente a Índia e o Sri Lanka, assim como do Índico à China sem passar por Málaca. O Mugalistão tenderia a conectar com Rakhine, as Ilhas Andamão, as Ilhas Nicobar e Acem na Indonésia, para erigir uma definitiva barreira em torno do estreito de Málaca. 
                             
Por estes motivos, não é de estranhar que a universidade bangladeshiana de Jahangir Nagar tenha criado um tal de Mughalistan Research Institute (MRI), patrocinado tanto pelos serviços de inteligência do Paquistão (ISI) quanto de Bangladesh (DGFI e NSI). Isto pode se inserir nos planos da antiga Operação Tupac (1988), do antigo presidente paquistanês Zia ul-Haq, para balcanizar a Índia. Nesta mesma linha, o Movimiento dos Estudantes Muçulmanos da India (SIMI) e os mujahideens da Índia trabalham com as mencionadas organizações para levar a Jihad contra os hindus em toda a Índia. Grupos fundamentalistas da Índia como Jamaat e-Islami, Lashkar e-Tayyaba, Jaish e-Mohammad e Hizbul Mujahideen haviam prestado seu apoio a estes esforços, declarando abertamente que os hindus são inimigos do Islã aos que tem que converter/matar, e que seu objetivo é a destruição da República hindu e a aniquilação do hinduísmo. Estes grupos haviam detonado numerosas bombas na Índia e seu ódio ao hinduísmo é maior que o que possam ter aos cristãos, judeus ou muçulmanos xiítas, já que os hindus não são "gente do livro" (Bíblia) e veneran a vaca, algo incompatível com o ritual Halal.

Tudo isto forma parte de uma guerra etno-religiosa que a décadas escala todo o Indostão. Uma rápida busca da frase Hindu Muslim atrocities no Google Imagens nos brindará testemunhas dos quais nunca se fala nos meios de comunicação do Ocidente —entre outras coisas, porque a Europa já se encontra em una situação precursora a da Índia. É muito difícil que este preocupante quadro cultivado por serviços de inteligência e poderosos interesses econômicos termine bem.

A situação geobloqueante da Índia em relação a Bangladesh reside no fato de que a última está rodeada pela Índia em toda sua fronteira, salvo um pequeno segmento fronteriço que compartilha com o mecionado estado birmano de Rakhine. Também, como nação-delta fluvial que é, depende da Índia pelo trânsito de 54 rios compartilhados. O fato de depender de vários rios, mas não controlar suas fontes é sempre motivo de tensões, como no caso do Egito com a Etiópia ou Israel com a Síria. Bastaria que Nova Delhi fizesse algo em um dos vários rios (por exemplo, uma barragem ou desvio, ou contaminá-los) para que Bangladesh mergulhe na fome. Estar cruzada por tantos rios converte Bangladesh em arquipélago em potência, bastando a um inimigo arrasar suas pontes ("objetivos de uso dual"), como feito Henry Kissinger no Camboja. Outra extraordinária fraqueza natural de Bangladesh é o baixo nível de seu território: qualquer flutuação do nível marinho, qualquer inundação ou maremoto, tem no país efeitos devastadores e poderá algum dia desencadear uma avalanche de dezenas de milhões de refugiados. Além do mais, sua topografía excessivamente plana carece de barreiras naturais que a protejam em caso de enfrentamento militar.


A nação bengaliana segundo os nacionalistas. Em verde: Bangladesh atual. Em vermelho: territórios reivindicados (Bengala Ocidental, incluindo Calcutá, a maior cidade e o porto mais importante da Índia). Nota-se que, ao norte, os territórios reivindicados separariam as Sete Irmãs do resto da Índia —colocando estas províncias hindus sob a influência de Dhaka e Beijing— e conectariam Bangladesh com Nepal, Butão e China, dando-lhe mais projeção internacional. Isto supõe, sem dúvida, uma grande tentação para Dhaka e seguramente para Beijing. Juntas, Bangladesh (a antiga Bengala Oriental do Paquistão) e o estado hindu da Bengala Ocidental, somam 240 milhões de habitantes. 

Existem dois exemplos que resumem as tendências dos dois vizinhos de Bangladesh. A primeira, típica de uma estrategia marítima, é que o porto hindu de Calcutá se dedique a travar laços com o porto birmano de Sittwe, negando diretamente à Bangladesh, que pode se ver tentada a considerar o estado de Rakhine como um prolongamento natural de seu território e aos muçulmanos rohingya como bangladeshianos oprimidos por uma nação estrangeira. A segunda tendência, mais lógica sob o ponto de vista eurasiático-continentalista, é que Bangladesh se converta em zona de passagem entre o Indostão e a Lestásia. Três mapas ilustram essas diversas possibilidades.

Projeto de gasoduto MBI (Mianmar-Bangladesh-Índia), o plano para transportar gás natural desde o campo gasífero birmano de Shwe (situado em frente à Sittwe) até Calcutá (maior cidade e mais importante porto da Índia), passando por Bangladesh. A Índia teria que pagar um imposto a Bangladesh por ser a rota de trânsito, mas isto resultaria mais barato que contornar Bangladesh pelas problemáticas províncias do Noroeste e pelo estreito corredor de Siliguri. O gasoduto, que acalmaria a paranóia de Dhaka de ser cercada pela Índia, ajudaria em boa medida a melhorar as relações regionais, razão pela qual é de esperar que encontre oposição no atlantismo e que todo o estado birmano de Rakhine sofra de desestabilização artificial ou até que tente se separar da Birmânia. 
  
Sua situação no Golfo de Bengala faz com que Bangladesh seja facilmente torturado pela Índia e Birmânia, por exemplo, devido aos laços portuários e de tráfico marítimo entre Calcutá e Sittwe. A resposta bangladeshina para não ficar marginalizada é fortalecer o porto de Chittagong como pérola chinesa e converter-se em zona de trânsito terrestre entre a Birmânia e a Índia (ver abaixo). Tanto Chittagong como Sonadia são pérolas do colar chinês. 
  
Depois de ver um pouco o panorama geopolítico do Índico e do Colar de Pérolas na primeira e segunda partes desta série de artigos, podemos entender que Bangladesh seja também um prolongamento natural dos possíveis gasodutos TAPI e IPI (este último, por sua vez, prolongamento do ambicioso Gasoduto Islâmico). O IPI, um projeto detestado pelos EUA, já que vertebra o sul da Ásia com gás natural iraniano, havia sido aceito pelo Paquistão, que o levará adiante com ou sem a Índia (que se retirou do projeto em 2009 diante das pressões de Washington). O TAPI, favorito dos EUA ao drenar a Ásia Central (antigo feudo russo) de recursos energéticos e cortar as saídas orientais do Irã roubando-lhe mercado, havia sido aceito por Bangladesh.

A China não havia ignorado a importância estratégica de Bangladesh e se apressara em incorporar-la ao seu Colar de Pérolas. Existem em Bangladesh duas pérolas do collar chinês. A primeira é o porto de Chittagong, ao sudeste do país. Chittagong é uma das cidades de crescimento mais rápido do mundo, além de porto de trânsito para 90% das importações-exportações bangladeshianas (principalmente de produtos têxteis para o Ocidente) e a saída natural para todo o sul da Ásia privada do acesso ao mar: Tibete, Butão, o Turquestão chinês, as Sete Províncias hindus, Nepal e algumas regiões da Birmânia ocidental. A China Harbour Company, em colaboração com as autoridades bangladeshianas, haviam investido em torno de 9 bilhões de dólares para transformar toda a costa sudeste do país e para desenvolver em Chittagong um porto de águas profundas, vários terminais comerciais para containers, uma ponte de 950 metros, um túnel subfluvial, um parque industrial e até uma estrada que conecta Chittagong a Kunming através da Birmânia. Vale a pena destacar que muitas destas infraestruturas são de uso dual (tanto civil quanto militar) e podem abrigar as armadas tanto de China quanto de Bangladesh. A natureza estratégica destes projetos permaneceu abundantemente clara quando o tenente coronel Moazzem Hossain, chefe de segurança da autoridade portuária de Chittagong, que havia estudado os portos de Le Havre (França) e Hamburgo (Alemanha), declarou sem mais nem menos que "Nossa intenção é substituir o porto de Cingapura". Isto não será recebido muito bem nas oficinas da mafiosa Port of Singapore Authority International (PSA), que muito recentemente havia perdido posições no porto paquistanês de Gwadar, em benefício da China Overseas Port Holding Authority (COPH).


Projeto para unir a cidade chinesa de Kunming (destinada a converter-se em um dos hubs comerciais mais importantes da China) com o porto bangladeshiano de Chittagong, uma das pérolas do colar chinês. 

A outra pérola chinesa em Bangladesh é Sonadia, uma ilha perto da cidade de Cox’s Bazaar, na qual a China havia investido 5 bilhões de dólares para construir um espetacular porto de águas profundas. Sonadia se conectará com Chittagong e Kunming, previsivelmente através da Birmânia, para converter-se em outra cabeça de ponte alternativa a Cingapura.

Existe outro atrativo estratégico, menos conhecido, de Bangladesh: o país se encontra repleto de reservas de gás natural, estimadas em 90-225 bilhões de metros cúbicos. Em comparação, o recentemente descoberto mastodôntico campo gasífero israelita de Leviatã tem 400 bilhões de metros cúbicos de gás. É certo que Bangladesh não pode comparar-se em termos energéticos com Rússia, Irã ou Qatar, mas segue sendo um baluarte bastante chamativo, especialmente tendo em conta que Bangladesh não tem meios de produção adequados para a exploração de seu gás e que é previsivel que convide multinacionais estrangeiras.

Neste mapa vemos os distintos portos que a China deseja controlar para estreitar corredores comerciais que reduzam custos e tempo e a liberem de depender de Cingapura. Além do mais, tenderiam a deslocar o núcleo econômico chinês da costa (por exemplo, Xangai e Hong Kong) para o interior continental (por exemplo, Chongqing e Kunming), onde a influência das potências oceânicas sempre será mais deficiente. Com vistas a isso, a China está investindo muito no estratégico setor de transportes no Paquistão, Bangladesh, Birmânia, Nepal e Butão. Todos estes países contornam… a Índia, que se encontra justamente no meio das rotas energéticas chinesas. 



SRI LANKA: A PONTE DE RAMA

A antiga Ceilão portuguesa é, como o Paquistão e Bangladesh, outro Estado geobloqueante para a Índia, separada do Indostão pelo delicado estreito de Palk. Sri Lanka separa também a costa ocidental hindu da oriental, já que o estreito de Palk não é transitável por embarcações de grande porte, que devem contornar Sri Lanka pelo sul. A antiga epopeia hindu do Ramayana já menciona a "ilha de Lanka" e a luta entre o rei Rama, do norte da Índia, contra Ravana, o monarca local. Rama haveria ganho a guerra ao construir uma ponte de pedra entre a Índia continental e a ilha de Lanka. No Ocidente, os navegantes gregos conheciam a ilha como Taprobane. Hoje, Sri Lanka é, segundo o US Economist Intelligence Unit, a segunda economia asiática de maior crescimento depois da China. Cweca de 36.000 navios passam a cada ano através de Hambantota, incluindo 4.500 petroleiros. E 85% das importações energéticas chinesas do Oriente Médio e grandes riquezas minerais da África passam pelo Sri Lanka.

Depois de formar parte do colar de pérolas português, o Ceilão passou, mediante guerra, às mãos da Companhia Holandesa das Índias Orientais, em 1656. Durante breves períodos, a França ocupou militarmente alguns fortes ou portos. Em 1796, os ingleses tomaram a ilha temendo que, depois da invasão francesa da Holanda, esta pudesse passar ao controle de Paris. Desde então até a época colonial, Sri Lanka esteve sujeito à influência britânica, que se beneficiou das riquezas naturais da ilha, como o chá, a borracha, as especiarias, as pedras preciosas e as argilas. O Ceilão também possuia (e possui) alguns dos maiores jardins herbais do planeta e uma vasta seleção de plantas medicinais. Durante a II Guerra Mundial, depois da queda de Cingapura em mãos do Império Japonês, Trincomalee —possivelmente o melhor porto natural do Índico— se converteu na principal base da Frota Leste da Royal Navy, assim como de submarinos holandeses. O porto e o aeródromo chegaram a ser atacados pelos japoneses em 1942.

Em 1948, Sri Lanka se tornou independente, mas o Estado segue chamando-se oficialmente Royal British Ceylon Goverment e os britânicos continuariam possuindo seu valioso porto de Trincomalee até 1956. Ao longo dos anos 60, o país foi caindo sob a órbita da União Soviética e do Movimento dos Não-Alinhados. Em 1971, uma estranha insurreição juvenil foi esmagada pelo governo de Colombo. A rebelião era dirigida por Rohana Wijeweera, uma espécie de Che Guevara cingalês (Sri Lanka foi o primeiro país da Ásia que reconheceu o triunfo da revolução cubana) que havia estudado em Moscou, mas, ao qual a União Soviética, devido a suas simpatias abertamente maoístas (portanto, mais alinhado da China), negou futuros vistos para viajar ao país. No Sri Lanka, Rohana Wijeweera se havia alinhado com a facção pró-chinesa do Partido Comunista, sendo acusado pela facção pró-soviética de ser um agente da CIA. No ano seguinte do falido golpe de Estado de Wijeweera, Sri Lanka se dotou de uma constituição, declarando-se república e denominando-se com seu nome atual.

Em seguida, as potências estrangeiras usaram das divisões étnicas de Sri Lanka para desestabilizar a desafortunada ilha e criar uma brecha geopolítica. O país tem uma minoria tâmil (relacionada, portanto, etnicamente com os hindus do outro lado do estreito de Palk) que com 2 milhões de membros conforma aproximadamente 9% da população do Sri Lanka. Os tâmis falam uma língua dravídica (pré-ária). O resto da população cingalês ressalvada uma minoria árabe de 7,7%, é de etnia cingalesa (também chamada singalesa) e fala um dialeto indo-ário. Os cingaleses são budistas em sua maior parte, enquanto que os tâmis são majoritariamente hinduístas.

Para sua desgraça, os tâmis são o que se poderia chamar de etnia estratégica. Dominando ambos os lados do estreito de Palk, influenciam decisivamente no tráfego marítimo desta região. No mapa vem representada a zona que durante décadas foi reivindicada pelos tigres tâmis como pátria tâmil, independente do governo de Colombo. O antigo porto britânico de Trincomalee se encontra nesta zona. Os tigres tâmis receberam apoio logístico, armamentístico e de outros tipos, por parte dos Estados Unidos, Reino Unido, Noruega e o atlantismo em geral. O império chola, de origem tâmil, dá uma ideia acerca da projeção estratégica desta etnia. Interessantemente, a região reivindicada pelos tigres tâmis coincide essencialmente com a bacia de Cauvery, onde existem importantes depósitos de petróleo e gás natural. 

A desestabilização da etnia tâmil vem das mãos dos Tigres de Liberação do Elam Tâmil (LTTE), mais conhecidos como tigres tâmis. A organização não só era uma frente guerrilheira e um exército, mas tinha também um braço terrorista que causou numerosos atentados tanto na Índia quanto no Sri Lanka, um ramo naval ("tigres do mar") que destriu de 35 a 50% das embarcações costeiras cingalesas e até a pouco era o único grupo insurgente do mundo que mantinha uma força aérea ("tigres do céu"). Muitos governos e agências de segurança consideram os tigres tâmis como um dos grupos terroristas mais implacáveis e melhor organizados do mundo. O LTTE utilizou sem escrúpulos escudos humanos, atentados a bomba em lugares públicos, limpeza étnica, pirataria e se acusa de assassinar 8.000 compatriotas tâmis considerados traidores de sua causa.

Tanto a Rússia quanto o Irã, China e Cuba apoiaram o governo de Colombo em sua luta contra o LTTE. Os EUA, Reino Unido, Índia, Japão, Austrália e a União Europeia em geral, haviam apoiado a LTTE, já de forma aberta ou de forma encoberta. A Noruega havia proporcionado asilo político a numerosos quadros diretivos da organização terrorista.

A insurgência do LTTE supôs um sanguinário e longo conflito intermitente, a Guerra Civil de Eelam (1983-2009), que desestabilizou gravemente o estreito de Palk. 2007 foi um ano chave: Beijing firmou um acordo naval com Colombo para desenvolver o porto de Hambantota e Moscou mandou como acessor militar o coronel-general Moltenskoy, que já havia lutado contra um movimento similar ao LTTE na Chechênia. Além do mais, os EUA firmaram um acordo parecido, havendo posto os LTTE em sua lista de organizações terroristas, provavelmente com a esperança de ganhar influência no governo cingalês, mandar acessores de antiterrorismo e conectar-se a Trincomalee como estação de abastecimento e apoio logístico para sua Sétima Frota, localizada na ilha Diego Garcia. Em 2009, com ajuda militar chinesa e russa, Velupillai Prabhakaran, o líder do LTTE, foi abatido pelo exército do Sri Lanka e o país entrou na Organização de Cooperação de Shangai (SCO), que inclui Rússia, China, Bielorrusia, Mongólia e Irã, entre outros.

A relação de Sri Lanka com o Colar de Pérolas chinês se concentra na cidade costeira de Hambantota, ao sul da ilha, um dos portos naturais mais privilegiados do Índico, onde a China havia investido somas astronômicas de dinheiro para desenvolver um porto de águas profundas. A China é também a força motora de uma usina de carbono de 1,3 mil milhão de dólares em Puttalam, outro estratégico porto natural que anima os cidadãos tâmis e/ou muçulmanos a irem para a Austrália de barco. A Torre do Loto em Colombo é outro chamativo projeto chinês no Sri Lanka.

A Índia tem seus própios interesses no Sri Lanka, especialmente no Trincomalee e no projeto do canal de Sethu Samudram. As águas do estreito de Palk são pouco profundas e estão completas de recifes, de modo que as embarcações pequenas, especialmente pesqueiras, não têm problemas na hora de atravessá-lo, mas é uma via impossível para as grandes embarcações (especialmente petroleiras e de transporte de gás natural liquefeito e similares). A Índia, durante muito tempo, havia ressentido o fato de que o tráfego marítimo passasse principalmente à costa sul do Sri Lanka, e espera que construindo um canal, os barcos se aproximem mais de suas costas. Espera também poder unir suas costas leste e oeste com uma rota marítima navegável e sem sair de suas águas territoriais. O projeto havia encontrado oposição de tipo ambientalista (em teoria porque geraria uma nova corrente marinha, que faria da Índia mais vulnerável a "tsunamis e outras catástrofes naturais" e destruiría formações de coral) e até religioso (romper a ponte de Rama seria uma espécie de sacrilégio para muitos hinduístas devotos). Não se pode negar que esta tendência humana de reorganizar a Natureza com fins econômicos seja perniciosa tanto para o planeta quanto para a humanidade, mas não é menos certo que estas objeções nunca foram de peso na hora de construir o canal de Suez ou do Panamá.

Projeto do canal de Sethusamudram. Escavar um canal no estreito de Palk, rompendo a ponte de Rama, economizaria uns 650 km de trajeto aos navios de grande porte, atrairia o tráfego marítimo para as costas hindus e daria um grande impulso à região tâmil que, recordamos, se encontra a ambos os lados do estreito. As águas territoriais hindus deixariam de estar partidas em duas e a Índia poderia passar desde o Mar Árabe ao Golfo de Bengala sem sair de suas águas territoriais (até agora deve dar uma volta pelo Sri Lanka). O final da guerra civil do Sri Lanka, em 2009, e a derrota dos tigres tâmis fazem com que este projeto seja atualmente mais viável. Fonte do mapa: tamilnation.co 

O Sri Lanka chega a 2013 como um país que não se submete gratuitamente aos ditames do FMI, que rejeita a interferência estrangeira em seus assuntos internos, assim como a privatização de empresas estatais (especialmente bancos estatais, aeroportos e infraestruturas elétricas), que experimenta um boom nos setores de agricultura e pesca e que mantem boas relações com China, Rússia, Cuba, Brasil, Irã, Paquistão, Venezuela e o Movimento dos Não-Alinhados em geral.

Colombo é também a peça central de uma arquitetura insular de segurança que abrange todo o Índico e que preside um denso tráfico marítimo. É particularmente chave para sua proximidade com as Maldivas (onde a China está estreitando importantes laços e deseja construir uma base naval) e com a ilha Diego García (base militar britânica concedida aos EUA). Durante a guerra indo-paquistanesa, em 1971, os EUA despacharam um porta-aviões para o Golfo de Bengala, em uma mostra de apoio a seu aliado paquistanês e na tentativa de intimidação a Nova Délhi, até então aliada da União Soviética.

O porto cingalês de Hambantota se encontra em uma posição central entre os estreitos de Ormuz, Málaca e Mandeb e as penínsulas Árabe, Indochina, Indostão e Chifre da África, tendendo a partir o Índico em dois. Nota-se a relativa proximidade de Hambantota das Maldivas, da ilha Diego García (território britânico do Índico onde há uma base naval estadounidense) e das Ilhas Cocos e Navidad (pertencentes à Austrália). Pode ser ilustrativo comparar este mapa com o mapa das rotas que vimos na primeira parte desta série de artigos. Um rápido olhar às zonas econômicas exclusivas do Índico volta a mostrar até que ponto, para passar de Ormuz e Mandeb a Málaca, tem que se atravessar uma cadeia de ilhas da qual o Sri Lanka faz parte. A ilha tem também uma posição adequada para se tornar um centro de telecomunicações. 



ROTA DA SEDA VS. ROTA DAS ESPECIARIAS, OU EURÁSIA VS. OCEANIA

A pior e mais antiga divisão de todas, a mãe de todas as balcanizações, a oposição entre o Yin e o Yang, entre o material e o espiritual, o instinto e a vontade, o inconsciente e o consciente, a intuição e a razão, o dionisíaco e o apolíneo, o feminino e o masculino. O continente eurasiático também reflete esta divisão, já que pode comparar-se aos hemisférios de um imenso cerébro. A Europa representa o hemisfério esquerdo, racional, lógico, científico e tecnológico, que havia herdado o pensamento linear e reto e que conserva a herença genética mais ativa e evoluida do planeta. A Ásia representa o hemisfério direito do cérebro, instintivo, intuitivo, que havia herdado o pensamento curvo, circular e cíclico, assim como as tradições, os mistérios e os rituais dos tempos antigos. Historicamente, a instintiva Ásia engoliu ao sangue e aos genes, enquanto que a racional Europa devorou ao espirito. Esta complementariedade pode ajudar aos povos do mundo, em particular os de origem europeia, a reencontrarem a si mesmos. O Ocidente pode fecundar terras asiáticas (especialmente a Sibéria, Kazaquistão e Mongólia) física, demográfica e economicamente, enquanto que a Ásia pode aportar suas heranças tradicionais para reacender a chama espiritual e moral no Ocidente —algo para o qual também há de contar com o Vaticano e a Igreja Ortodoxa, ou ao menos, com alguns setores destas instituições.

Lacuna Interhemisférica (elipse vermelha) e principais centros econômicos da Eurásia (elipses azuis). Este mapa representa o que Mackinder chamava de "Ilha Mundial": a continuidade terrestre da Eurásia-África. Um gigantesco passo na balcanização deste espaço foi o estabelecimento do Canal de Suez primeiro (onde a rota marítima corta a rota terrestre) e do Estado de Israel depois, que separarão ambas as unidades convertendo-as de fato em ilhas separadas e permitindo que o poder marítimo envolva ambas. De um ponto de vista telurocrático (continentalista e terrestre), o Sinai deveria ser uma ponte entre Eurásia e África, não um canal entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. O segundo passo teria sido alimentar a Lacuna Interhemisférica, um eixo que separa o Grande Oriente do Grande Ocidente, e que inclui os campos petrolíferos russos de Nenets, os Urais, o território do antigo reino jázaro (khazar), o Cáspio-Cáucaso, a Pentalásia (incluindo o Estado de Israel), o Golfo Pérsico, o Golfo de Adém e o Chifre da África. A Rússia e o Irã são os dois países-chave que neutralizam a lacuna interhemisférica, a Rússia por seu vasto território e o Irã por tender a obter uma saída ao Mediterrâneo, partindo a coluna em duas. Também a Grécia e as populações cristãs e xiítas do Oriente Médio tendem a neutralizar a coluna. Além do mais, se a Rússia e o Irã conseguirem conectar-se territorialmente através de espaços balcanizados (Cáucaso e Ásia Central) ou através do Cáspio, se formaria um eixo interhemisférico e o Rimland seria quebrado, o qual seria um desastre para as potências oceânicas do mundo. 

Como se vê, em muitos sentidos, ambos os subcontinentes são antitéticos, mas em outros, se complementam em perfeição, especialmente quando concebemos a Rota da Seda como a coluna vertebral de um corpo, que "verticaliza" a Eurásia. Sobre este ponto de vista, a Ásia é o corpo principal, a Europa a cabeça e a Lacuna Interhemisférica o pescoço. A coroa da Eurásia se encontraria no espaço marítimo atlântico da Península Ibérica, de Ferrol à Cádis.

Os únicos países que podemos considerar propiamente eurasiáticos são Rússia, Grécia, Cazaquistão, Turquia e Azerbaijão. Mas basta uma rápida visualização num mapa para se dar conta de que todo o espaço entre a Europa e a China está minuciosamente balcanizado… exceto um. A Federação Russa é o único espaço comum eurasiático que proporciona continuidade territorial direta e estável entre ambos os polos da Eurásia. Portanto, em qualquer tipo de relação entre o Grande Ocidente e o Grande Oriente, é necessário contar com a Rússia. Particularmente delicada é a zona onde a Rússia se transforma em Oriente Médio e onde se entrecruzam o cristianismo ortodoxo, o Islã e o budismo, quer dizer, o espaço correspondente às repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central e Cáucaso —ou como denominou Zbigniew Brzezinski, os Balcãs Eurasiáticos. Aqui a Rússia tem o grande trunfo, já que conhece os povos e dialetos desta região, que no passado havia administrado diretamente, e nela se fala russo e existem populações russas.

A Rússia também abrange a maior parte do Heartland da Eurásia, a chave do mundo material, o lugar onde domina o horizontal e a terra; onde o tempo, devorado pelo espaço, passa mais lentamente e onde a modernidade não acaba de penetrar de todo: no coração da Eurásia, as mudanças não se haviam produzido no mesmo ritmo que na Europa Ocidental ou na América do Norte. Não seria de estranhar, portanto, que a Rússia acabe suplantando, como enorme ponte terrestre que é, as rotas marítimas controladas pelo comércio internacional e pelas potências atlantistas do mundo.

Não seria a primeira vez que a Rússia joga este papel integrador de rotas entre Ocidente e Oriente. Na Alta Idade Média, os vikings fundaram os primeiros Estados russos, abrindo rotas comerciais desde a Escandinávia, o Báltico e o Mar do Norte até o Império Bizantino e o Grande Oriente, através dos grandes rios russos, as estepes e os territórios do conquistado reino jázaro (khazar). Em várias campanhas militares, os escandinavos derrotaram aos jázaros tomando sua capital, Sarkel —agora submergida pelo pântano de Tsimlyansk, cerca de Volgogrado (ex-Stalingrado). Os vikings mantiveram uma rede de rotas que ia desde a América do Norte até a estepe asiática, constituindo um espaço plenamente em sintonia com o que Guillaume Faye chamou "Setentrião". Só a invasão de Genghis Khan no Século XIII rompeu esta prometedora rede, estabelecendo um khanato como geobloqueio que frustrou as conexões entre o Ocidente e o Oriente e se enriqueceu com os impostos e o controle das rotas a tal ponto que chegou a ser conhecido como Horda Dourada —é o período conhecido na história russa como o "jugo mongol". Este antecipou o que poucos séculos depois se passaria mais ao sul com o Império Otomano.

A I Guerra Mundial e a revolução bolchevique foram uma manobra estratégica atlantista para frustrar a conexão terrestre entre o Ocidente e Oriente, separando e enfrentando as principais superpotencias continentais e especialmente intentando introduzir, mediante o terror, a escravidão e a morte, a "modernidade" no Império Russo, produzindo uma aceleração do tempo para tentar devorar o grande espaço. Também a Alemanha quis devorar o grande espaço, mas beliscou mais do que podia engolir. Resulta numa pena que, devido a interesses e tabus do pós-guerra, o pensamento geopolítico alemão, a Geopolitik, cujo grau de desenvolvimento era comparável ao britânico, havia caido no esquecimento deixando de ser estudado. Já em 1924, na revista "Weltkampf" (Luta Mundial) de 1 de julho, o intelectual nazista Alfred Rosenberg, que havia estudado em Riga e Moscou, que era "eurasianista" e que chegaria a ser ministro do Reich para os territórios ocupados do Leste, analisa de uma forma um tanto judeocêntrica os motivos que teve a finança internacional para desestabilizar a Rússia e subverter seu governo através do bolchevismo, mas identificou perfeitamente a natureza soberana, tradicional e autárquica do império eurasiático por excelência.

A Rússia era o único país do mundo no qual a classe dirigente era contrária a organização do judaísmo mundial. À frente do Estado havia um autocrata que era imune a pressão parlamentar, e os dirigentes eram independentes, ricos, e de tal modo estavam impregnados das tradições religiosas e políticas, que o capital judaíco, com raríssimas exceções, não tinha sobre eles nenhuma influência. Os judeus não eram admitidos nem nos cargos do Estado, nem nas funções judiciárias, nem no Exército.

A classe dirigente era independente do capital judaico porque possui grandes riquezas territoriais e florestais. A Rússia possuía trigo em superabundância, e completava sempre suas reservas de ouro com as minas do Ural e Sibéria. A prestação de metal do estado compreendia quatro bilhões de marcos, sem contar as riquezas acumuladas pela família imperial, dos monastérios e das propriedades particulares. Apesar de sua indústria proporcionalmente pouco desenvolvida, a Rússia podia viver por si mesma sem nada importar.

Todas estas condições econômicas tornaram quase impossível a escravidão da Rússia pelo capital judaíco internacional, segundo os procedimentos que se dão hoje na Europa ocidental.

Se agregarmos, além disso, que a Rússia era a repositora dos princípios religiosos e conservadores do mundo, aos quais com a ajuda de seu exército haviam esmagado todos os movimentos revolucionários sérios, e os quais não admitiam em seu território nenhuma sociedade secreta, se compreenderá por quê o judaísmo mundial devia dirigir seus ataques contra o Império Russo.

Do lado britânico, o geógrafo inglês Halford J. Mackinder, um dos fundadores da Geopolítica moderna, tinha uma fixação pelo land power (poder terrestre ou telurocracia), apesar de haver formado seus ideais num país que devia seu imenso império ao emprego do sea power (poder marítimo ou talassocracia). Obcecado especialmente com a Prússia, Áustria e o Império Russo, Mackinder afirmou que "Quem governa a Europa do Leste controla o Heartland; quem governa o Heartland controla a ilha mundial; quem governa a ilha mundial controla o mundo". Sua mensagem tinha a ideia de criar um "cordão sanitário" de estados-tampões entre Alemanha e Rússia com o propósito de evitar a aparição de uma potência hegemônica na Europa do Leste. É que tanto a Rússia quanto a Alemanha são as potências melhor situadas para dominar a Europa do Leste —e, portanto, segundo Mackinder, o mundo.

Obtendo uma continuidade territorial direta "desde O Cairo até o Cabo", e criando um "cordão sanitário" de estados-tampões entre a Alemanha e Rússia, a diplomacia do Império Britânico mantem una lacuna interhemisférica que separa a Eurásia da África e a Europa da Ásia, partindo a Ilha Mundial em duas. De suas principais adversárias geopolíticas, a Rússia havia sido consumida por uma guerra e arrasada por uma revolução destrutiva, e a Alemanha se encontrava imersa em lutas sociais e civis, sob uma enorme dívida de guerra, castrada militarmente e mutilada territorialmente. O cordão sanitario europeu abarcava uma enorme população judia (coincide, em boa parte, com a antiga comunidade Polaco-Lituana, o Império Austro-Húngaro e a Zona de Assentamento decretada por Catarina a Grande numa tentativa de expulsar os judeus de seu império), como hoje a tem outro Estado importantíssimo da atual Lacuna Interhemisférica: Israel. Em 1939, a Alemanha estava à frente da URSS, rompendo o cerco onde quer que fosse mais estreito e frágil: em Dantzig-Prússia Oriental. Na África, o Eixo também tentou romper a barreira britânica à altura do Egito e, da parte italiana, tentando unir a Líbia com a Abissínia. Ao norte, a Noruega foi invadida pela Alemanha e a Finlândia pela União Soviética. 

A Alemanha decidiu romper o cordão sanitário da Europa do Leste em setembro de 1939, invadindo a Polônia apesar de pressionada ferozmente pela diplomacia britânica e francesa. A URSS também invadiu a Polônia (pela segunda vez, posto que já o houvesse tentado em 1919-1921), mas os aliados ocidentais só declararam guerra a Alemanha, evidenciando que o ator regional que mais os inquietava era Berlim, com sua promoção do "mito do sangue", seu comércio internacional de troca ao largo das moedas de reserva do comércio internacional da época e sua subversão total das finanças e da política monetária (abolição do padrão-ouro e do interesse do dinheiro, instauração do padrão-trabalho ou riqueza). O resto da história já conhecemos: a II Guerra Mundial supôs a aniquilação da nação mais poderosa da Europa, o fim do prussianismo e o estabelecimento de um novo cordão sanitário em solo europeu, desta vez chamado de "Cortina de Ferro". Ao longo da Guerra Fria, a União Soviética transformando-se em uma potência de caráter cada vez mais nacional e continental —em parte por sua geografia e em parte graças à natureza patriótica e religiosa de seu sacrificio na II Guerra Mundial—, até converter-se em um obstáculo no caminho da globalização planejada pela Alta Finança.

Quando a URSS se desintegrou em 1991, o império soviético perdeu a metade de sua população, um quarto de sua massa terrestre e a maior parte de sua influência global. Na mesma Rússia, foi uma onda de liberações e privatizações, a corrupção tomou conta do vasto país e surgiu uma poderosa casta de multimillonários bem relacionados com Wall Street e a City Londres: os chamados oligarcas se ergueram como senhores feudais, abrindo a Rússia ao comércio internacional para que seus recursos pudessem ser saqueados pelas multinacionais estrangeiras. Alguns oligarcas inclusive criaram ONGs, partidos políticos, grupos de pesquisa e redes clientelistas a imagem e semelhança das "fundações" privadas que tanta influência haviam tido na engenharia social e econômica do Ocidente capitalista. Um destes oligarcas russos foi o magnata petroleiro Mijaíl Khodorkovsky, chefe da petroleira Yukos. Khodorkovsky criou a Open Russian Foundation, claramente inspirada na Open Society de George Soros. A Open Russian Foundation tinha em seu conselho diretivo personalidades do tamanho de Henry Kissinger e Jacob Rothschild, o qual nos oferece a chave de sua natureza. O objetivo deste consórcio, bem financiado pelo petróleo russo e pelas ajudas da finança internacional, era desmantelar a soberania russa, comprando a preço de barganha seu tecido econômico da época soviética e transformando o país em algo mais digerivel ao neoliberalismo globalista, algo assim como a Alemannha moderna: um "acionista responsável" e gestor regional obsequioso de um sistema global unipolar dominado pelo establishment (e não pelo povo) angloamericano, por sua vez, fortemente obediente aos interesses judeus. George Bush pai, que também tinha interesses petroleiros no assunto Khodorkovsky, havia predito uma "nova ordem", talvez esperando que os recursos e rotas comerciais da Rússia se fariam a serviço dos usuários globalistas, se Khodorkovsky tivesse êxito em seu plano de vertebrar oleodutos privados para favorecer a China e EUA, e que o mundo inteiro seria tomado pela nova convergência globalista: neomarxista no cultural e capitalista-neoliberal no econômico.

Foto à esquerda: George Soros, especulador financeiro. Foto à dreita: Mijail Khodorkovsky, petro-oligarca aspirante à presidência da Rússia. Quando indivíduos como estes pronunciam sua palavra favorita "global", é bom começar a tremer.

A história mais recente demostra que as teorias de Mackinder sobre o Heartland e a necessidade de um "cordão sanitário" na Europa do Leste seguem mais vigentes que nunca. Um ano depois da invasão do Iraque —na qual se contrariou perigosamente tanto a Alemanha quanto a França—, o atlantismo já havia recrutado uma série de Estados da Europa do Leste: Polônia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Romênia e Bulgária, além de Estônia, Letônia e Lituânia. Esse quadro se completa com o "escudo antimíssil" e com os velhos membros otaneiros Turquia e Noruega. Além disso, prossegue na desestabilização de toda a Pentalásia e na "atlantização" do Conselho de Cooperação do Golfo (os Estados árabes em vermelho no mapa, ao sul do Iraque). O novo cordão sanitário se extende desde a Noruega até Omã, desde o Oceano Ártico até o Índico, partindo a Eurásia em duas. Contudo, os muros de contenção que o atlantismo erige militarmente, são facilmente derrubados pela Rússia energética e comercialmente, com sua estratégia do controle do fornecimento de gás natural pelos "russodutos" (Nord Stream e South Stream). A outra tentativa de romper este cordão sanitário vem pelo Gasoduto Islâmico, que pretende unir o Golfo Pérsico (Irã) com o Mediterrâneo (Síria e Líbano), através do Iraque. De fato, no mapa se aprecia como Iraque-Síria-Líbano são, junto com Constantinopla, a parte mais vulnerável do cordão sanitário —a importância do Curdistão, em particular, é muito visível. O Gasoduto Islâmico pretende prolongar-se também para o Leste para transitar pelo Paquistão, Índia (projeto IPI) e, talvez com o tempo, Bangladesh, China e Sudeste Asiático. 

Em 2003, Vladimir Putin arrebatou de Khodorkovsky o controle da petroleira Yukos, nacionalizando-a justo quando o oligarca estava a ponto de entregá-la ao Lord Rothschild e a ExxonMobil ou Chevron (descendentes da Standard Oil de John D. Rockefeller). Dois anos depois, Khodorkovsky foi mandado a uma prisão siberiana. Esse caso pode comparar-se com a perseguição e processo de muitos outros oligarcas (Oleg Deripaska, Vladimir Gusinsky, Boris Berezovsky) durante a era Putin. Em vista das graves instabilidades causadas pelas fundações e ONGs estadounidenses em outros países, em setembro de 2012 Moscou expulsou de seu território a turva organização USAID, uma fachada legal da CIA e do US State Department estabelecida no país desde 1992.

Estes atos simbolizam que a Rússia volta a se considera como um poder soberano e independente, com uma vontade própria e com interesses própios, que não tem porque obedecer aos ditados da globalização promovida pela Alta Finança, e cujo exemplo pode inspirar a outras potências como Brasil ou Irã. Pode-se dizer mais alto, mas não mais claro: acima dos problemas do Estado russo, o potencial geopolítico da Federação é extraordinário. O país proporciona uma continuidade não-balcanizada desde a Europa até a Lestásia, se encontra ao lado da Pentalásia (só tem que cruzar o Cáucaso), mantem um pé no Levante pela Síria, no Báltico devido a Kaliningrado e outro nos Balcãs através da Sérvia. É também o país número um em reservas de gás natural, o primeiro produtor de petróleo do mundo, possui um terço das reservas de água doce do mundo (o segundo país em importância depois do Brasil), terras áraveis, pastos, metais e pedras preciosas e outras riquezas minerais, vastos espaços virgens, biodiversidade humana, animal e vegetal, mais superfície florestal que nenhuma outra nação, o maior arsenal nuclear do mundo, um imponente complexo militar-industrial e uma tradição imperial no qual respeita a diplomacia, a geoestratégia (a Rússia tem um pensamento e uma escola geopolítica plenamente desenvolvida) e a Inteligência, além do tamanho esmagador e uma magnífica posição geográfica —a melhor e mais dominante do mundo. Tem também enormes potenciais desconhecidos e/ou ainda à explorar, como a rota marítima do Ártico (a Rússia é o país com mais terras no Círculo Polar e mais costa no Mar Ártico, encontrando-se, portanto, na melhor posição para dominar o Polo Norte) e as riquezas encerradas em seu permafrost siberiano. Se ainda existe no mundo algo parecido a uma "terra prometida", deve encontrar-se em algum lugar da Sibéria-Cazaquistão-Mongólia.

Mas este quadro tão privilegiado e promissor necessita igualmente de uma férrea autoridade. Quem quer que organize os recursos e potenciais (incluindo humanos) da Federacão Russa para se tornar a principal superpotência do mundo, terá que cultivar sua maior riqueza: o povo russo, reconhecendo que os eslavos são a etnia vertebradora da nação e a base do Estado. O Kremlin tem tomado medidas sérias para povoar a Sibéria e para aumentar a natalidade dos russos. Outro passo que a Rússia necesitaria dar é promover um espaço econômico comum eurasiático e uma aliança militar que possa exercer o papel de eixo de integração eurasiática, de contrapeso ao poder da plutocracia angloamericana encarnada na OTAN, que faz com que a Europa, especialmente a Alemanha, volte a mirar ao Leste, e que organize os recursos do Heartland como se fosse um "novo Novo Mundo". Seguindo o exemplo dos antigos vikings e cossacos, se povoaria o coração da terra com europeus promissores e valentes, para criar os verdadeiros Estados Unidos da Eurásia e assentar as bases do tipo humano que herdará o planeta. O desenvolvimento do "selvagem Leste" pode supor uma verdadeira revolução geopolítica, cultural e humana.

Por estes motivos, resulta muito interessante prestar atenção aos diversos projetos eurasiáticos de poder continental promovidos pelo Kremlin, como a União Aduaneira, a Comunidade de Estados Independentes (CEI), a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e, especialmente, a União Eurasiática, proposta, mas todavia não constituída. Também é indispensável monitorar de perto a estratégia dos "russodutos", especialmente o projeto South Stream, e a ponte terrestre China-Turquia, um conjunto de vias ferroviárias que basicamente recriaram a Rota da Seda [9].

Mas apesar destes passos, se está muito longe de romper o cordão sanitário mais importante que resultou da II Guerra Mundial: o bloqueio psicológico coletivo, a Cortina de Ferro cultural levantada pela ONU, escola de Frankfurt e a alta finança em torno dos novos tabus de nosso tempo, que minam as raças humanas, o nacionalismo, o patriarcado, a genética, a tradição, a eugenia, a identidade, a desigualdade natural, as diferenças entre sexos, a agressividade, o direito a legítima defesa, a disciplina, a autoridade, a hierarquia e o instinto territorial —assim, geopolítico— de povos inteiros, incluindo de alguns que "em teoria" haviam ganho a II Guerra Mundial. Enquanto esta repressora cortina de ferro persiste no imaginário coletivo dos povos europeus-étnicos (não só na Europa, mas também na América Norte, América Ibérica, Austrália e África do Sul), nossos povos retrocederam e perderam poder, enquanto que todos os demais povos do mundo avançaram simplemente ocupando o vazio criado. Uma Eurásia forte nunca será possível se a primeira metade de seu nome, que representa a cabeça do continente, está sequestrada por uma cultura debilitante, enferma e autodestrutiva. A Europa tem que se deixar despertar ao fato de que o mundo é um lugar cada vez mais turbulento, e defender como qualquer potência digna de tal nome, seus malditos interesses, tanto econômicos e estratégicos como étnicos, reprodutivos, demográficos, culturais e militares. E isso não é possível com a atual Europa dos lojistas, mercadores e usurários, que nos tem convertido num continente de consumistas e escravos de escritórios dispostos a aceitar sem resmungar a estratégia globalista criminal dos parásitas covardes entrincheirados nas torres de marfim da Alta Finança.

No pensamento políticamente correto prevalecente atualmente, as fronteiras existem só no papel, a velha Europa representa uma cultura de vencidos abatidos, de perdedores, de tristes burocratas e burgueses sem substância, e os europeus, cada vez mais idosos e esterilizados, não só devemos deixar-nos colonizar pelo resto das raças do planeta, mas que além diso devemos pagar sua estadia e subsidiar com nosso trabalho a multiplicação indefinida destas raças, mesmo à custa de extinguirmos a nós mesmos e de desgastar os recursos do planeta. O resultado final será uma África africana, uma Ásia asiática… e uma Europa, América do Norte, América Ibérica e Oceania habitadas por uma raça híbrida, maleável, desorganizada, sem consciência coletiva e de manutenção barata, que proporcionará a base social da Nova Ordem Mundial planejada durante séculos pela alta finança. Goste ou não, a dissolução da raça branca gerará —e já está gerando— uma enorme instabilidade global, depois do que se produziria o definitivo advento de Globalistão.

Para alcançar este fim, o instinto natural de sobrevivência e de auto-preservação, consubstancial a qualquer animal, está sendo retirado meticulosamente da humanidade europeia. Se segundo Mackinder, a "virilidade" de um povo era (junto com o "equipamento" e a "organização") o fator mais importante na hora de julgar seu potencial, está claro que os povos europeus estão sendo castrados de sua masculinidade natural —que em outros tempos era muito forte— e despojados de sua herança patriarcal. Isto se traduz imediatamente em uma suavidade na luta contra o crime, especialmente organizado, e na efeminação da política tanto interior como exterior de nossos Estados.

Qualquer intenção de romper esta nova cortina de ferro psico-cultural, este novo cordão sanitário de balcanização mental, será imediatamente tachada pela "comunidade internacional" e pelos agentes tanto voluntários quanto involuntários da globalização capitalista-financeira neoliberal, como intolerância, nacionalismo, militarismo, racismo, fascismo, nazismo, obscurantismo medieval, conspiranoia e outra duzia de substitutos modernos do temido rótulo de "herege" de outros tempos, criados na realidade para remover qualquer debate. Mas o eixo permanece no qual os europeus étnicos estão sendo submetidos, com nosso própio trabalho, a um plano global de disgenesia e limpeza étnica branda que dizima nosso manpower enquanto que nos hipnotiza a base de consumismo e entretenimento. Isto sugere, por sua vez, que os europeus étnicos somos um obstáculo para os geoestrategistas da globalização que não se consideram atados a um solo nem a um sangue, mas ao dinheiro e ao poder, e que atuam através de lobbies, ONGs, seitas, fundações privadas, serviços de inteligência, think-tanks e agentes destas organizações em universidades, empresas, exércitos, municípios, meios de comunicação e outros organismos tanto privados quanto públicos —incluindo uma infinidade de governos. Quem romperá esta cortina de ferro, muito mais sutil e insidiosa?






NOTAS

[1] Lord Carrington também se destacou apoiando, financiando e armando o movimento mujahideen (antepassado dos talibãs) que, baseado no Paquistão, lutava contra a influência soviética no Afeganistão. Os mujahideens, comparáveis aos khmers vermelhos de Pol Pot, atacaram objetivos civis no Afeganistão, destruindo 1.800 escolas, 40 hospitais e 110 centros de primeiros auxílios, pondo fim a influência modernizante que exercia a URSS sobre o país.

[2] "British Foreign Policy Since 1870", Will Podmore, 2008.

[3] Mais informações em:

[4] Ver em:

[5] O financiamento dos maoístas com dinheiro ilegal procedente do narcotráfico do ópio é um eixo pouco mencionado na história oficial. Na garganta de Nanniwan, província de Shaanxi, os comunistas chineses montaram em 1941 um comitê de produção de ópio a mando de Ren Bishi, em resposta ao bloqueio econômico por parte do exército japonês e pelo Kuomintang. O ópio financiou as primeiras repúblicas soviéticas na China: Jiangxi e Yan’an. Mais informações sobre o tráfico de ópio e o movimento comunista-maoísta em:

- "New Perspectives on the Chinese Communist Revolution",
The Blooming Poppy Under the Red Sun (Tony Saich, Hans J. Van de Ven).

- "The Blooming Poppy under the Red Sun: The Yan’an Way and the Opium Trade", (Chen Yongfa, 1995).

- "Diario de Yan’an", Peter Vladimirov.

[6] Mais informações em:

[7] Mais sobre o projeto de Dawei em:

[8] Especialmente no princípio dos anos 90, revistas como a National Geographic e outros meios de prestígio internacional nos apresentaram como é a vida nos subúrbios das favelas hindus, das favelas brasileiras, das favelas nigerianas e similares, descrevendo estas sociedades como "vibrantes", "vitais", "coloridas", "autênticas", "espontâneas", "alegres", "festivais", "dinâmicas", etc. Parece que o que interessa à globalização é extender esse modo de vida austero de felicidade na miséria, naturalizando o fatalismo conformista de rebanho e a escravatura moderna. O impacto ecológico que produz o estilo de vida das classes brancas do Ocidente não é sustentável em comparação com os hábitos de "reutilização dos recursos" (buscar no lixo, construir favelas a partir da folha, madeira e carros abandonados, ter filhos mesmo bebendo água cotaminada, viver de sobras) das sociedades urbanas do Terceiro Mundo. Pode ser que a globalização queira que Londres, Paris, São Paulo, Madrid, Roma, Berlim, Amsterdam, Estocolmo ou Nova York, se pareçam cada vez mais a um subúrbio proletário massificado de Calcutá, Lagos, Karachi, Cairo, Manila, Jacarta ou Cidade do México: afinal, mais mão de obra barata, o sonho das multinacionais escravistas.